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domingo, 9 de maio de 2021

camila

Gavin Evans












hi

long time no send


I vanished

I know

what I don’t actually know

is whether I disappeared myself

or myself disappeared in me

never mind

not returning to you is perhaps a cowardice

of someone who indulges himself

in his disappearing

 

I just don’t know

 

yet

I often think about sending you something

but I don’t know what to say

or if I should

or why shouldn’t I

it seems that every single thing

became distant of these days

one cannot smell and touch and feel

and seeing or listening or cuddling is afar

an enormous garden where nonsense sprouts

nonsense me

nonsense it all

I won’t equate the word all with life

it’s not as vast and vague

as the word life might imply

[life is or is not]

nonsense of being without purpose

a state of nonsensical laziness

working hard as any motionless machinery

 

purpose doesn’t necessarily mean meaning

but it put up a very precise type of joy

the one that rises from the need

of moving on towards whatever

 

so it happened that I gradually became bewildered

incapable of reaching out

to tell you the truth

I gradually became sick of humans

humans walking on the sidewalks 

humans shopping around out of line

humans lying on tv news

humans speaking out of podcasts

humans speaking up at overated videos

humans acting out in series

humans preaching in lives

app-humans

like ghosts

 

I did mull over and over again

on the issue of me not being able to live

without illusions that allow foreseeing

further illusions

which have always yielded in me 

the joyful need to move

 

be that as it may

in spite the fact that we’ve never met

it's due to you this piece that I wrote

 

because I can't temporarily neither speak

nor write in our native language

I wrote in this one and what I wrote

boils down to the following:


‘my dearest far-off friend

miss you

really hope you’re alright

hope we can meet eventually

and take a walk alongside

the nonsense garden


 p.s.: this is not a farewell'

andrejcaetano



sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

ki'rera


nas infâncias tinha avô

o avô tinha fazenda

a fazenda tinha um ribeiro

o ribeiro tinha uma curva

na curva tinha um remanso

no remanso era a seva

[à quirela de milho]

 

             no final da tarde tinha pescaria

             [‘deixa eu te ver peixe’ – ‘não deixo’]

 

lambari brincava

fazia de grande

fazia de pequeno

lambiscava-isca

e partia [ela na goela]

 

o avô olhava de viés o menino

a vara envergando

retesando

a linha ziguezagueando

‘é lambari’

 

tem que ter tempo de pescaria

para saber lambari

 

piau era mais vagarento

[não bobo tilápia de açude]

o avô observava de soslaio

a linha a vara a mão a face

o menino

dizia primeiro com os olhos

depois ‘seja peixe pescador’

que o menino entendia calado

‘não é lambari’

 

entre quem não via o peixe

e o peixe que não via quem

anzol

 

o passaredo silenciando

o som manso da corrente maina

luz do sol descendo pela peneira das árvores

faíscas na água do ribeiro

reflexos da noite chegando

 

um punhado de quirela ondeia o remanso

a voz do avô [‘vamos subir’]

a resposta menina fita-lhe os olhos

‘peixe avô pescador’

 

menino conversando com o silêncio ancião


andrejcaetano
Matt Bachdar

sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

pé scriptum


qualquer coisa uma hora perde o pé

ou o pé se perde

onde pisa

no singular

do par não a par

[não há par]

 

onde um pé pisa

o outro observa

pré-ocupadamente

atado

pela perna sua

via tronco

à perna do outro pé

que pisa onde se perde o pé

brejo seco

solo de mármore

piso de barro

superfície lunar

 

perder o pé

metáfora deslizante em chão escorregadio

fragmento semanticamente inteligente

super além-do-mais

entre tanto

lacunar

inútil

[afinal]

no cume da oração

onde o gume cirurgião

rasga os riscos

aos finais

andrejcaetano

Divyakant Solanki


sábado, 2 de janeiro de 2021

sexo

 

tremeluz   vergasta   não passa disso

o que tu querias? a mulher idolatrada?

a esfera celestial? algum tipo de feitiço?

é carne, meu caro!, é a carne sagrada

a atrair a pedir mais carne!, chouriço!:

'vem meu amor   vem enlouquecida amada

esquecida de que existem razões e isso

navegue tua língua do alentejo até granada

e que exploda em tua boca o armistício

e assim as coisas de bons amigos consagradas

nos enxague os corpos depois do meretrício

quando fartos e desunidos estejamos nada

como o pássaro-sexo desde o seu início'

andrejcaetano

Yung Cheng Lin



quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

orides

 

ó pobre Orides

houve de inscrever tão fundo

com o prego torto

que a tinha dependurada na parede

 

nada de versos orados

ornados

despejando o contido na despensa

ideais do-eu ou daquela Outra

 

nada de escreveres vazantes

vazamentos vagos

delineando a condição pegajosa

de um dia esquisito

 

mui distinto mas tal e qual

indo para o não-mais-sendo

do conjunto qualquer-outro

armazenado na despesa da memória

 

ó pobre Orides!

 

deambulando por nenhum lugar

em sua ânsia construtiva

a agulha espetada no olho da palavra

fazendo dela o que ela não quer

 

o que ela não quer

é o que ela faz

te pendura numa sequência destrutiva

de paus-de-arara

 

uma arara

Orides

arara-uma

qual-qual quer outra

araru-ama

bebedouro

delas

andrejcaetano

[Vide Aperture]


segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

tudo que penso

 

me preguntan alguna cosa

eu

em vez de pensar

torço meu pescoço para trás

jogo meus olhos para o alto

e vejo-os todos lá

plainando

tudo que penso

que

penso

andrejcaetano

Mario Lasalandra


sábado, 28 de novembro de 2020

foco

 

a foca

foca visão mira nariz

equilibrista fuça

ora bolas


a foca não foca nada

fuça

brinca

rabisca


amestrada cativa

ainda que

não força esforço

ainda que força


aplausos mestres

peixes por

bolas

ora

andrejcaetano 
[ ? ]

terça-feira, 29 de setembro de 2020

assumpção

 [devido a/por Itamar]


deste instante em diante

pasto no que ele fez da dor

ele

aquele nego negro sonda

rumo onda

quando subiu no palco

do dce da gonçalves dias

 

e

ó!

eu estava lá

 

por que eu estava lá

não sei

porque estar lá então

foi

daquele instante em diante:

aquele nego reto fino

solo alto

baixo

gigantescamente

e eu nunca mais

coube

sem saber não haver porquê

não dizer: cravaste a carne:

gestos jeitos arranhando o céu

machucando a noite

ilhas istmos continentes

tudo um dia soçobra

tanto lá

quanto ré

paraná

um sol si dói

auf wieder sehen

e o resto depois eu digo

 

e

não

não foi a música somente

foi

o país que eu era e ainda não era

doídamente negro

totalmente nego

afroparanaense

em curtos toques

paulistanamente

telegráfico batuque

um país incabível

em tanto exclusivamente

e

a palavra do corpo na música

alta tesa fina

preta

elegantesimamente

andrejcaetano [Southampton - 2013]



quarta-feira, 15 de julho de 2020

a nação em sinastria


ele fritava um ovo

olhando para a frigideira

ela disse:

 

‘você acha tudo fácil

 mas duro mesmo

 é corroer solene’

 

a chuva dedilhava a janela

lavava carros

levava erros

andrejcaetano

Chema Madoz

sexta-feira, 3 de julho de 2020

gênero I

Agora

teu sexo

sugando meus verbos

 

 Depois

 minha caneta

 rabiscando teus espíritos

 

andrejcaetano

Njideka Akunyili Crosb


sábado, 23 de maio de 2020

lápis-lázuli


ela colocou os cotovelos sobre a mesa de vidro

mirou o chão por muito tempo

 

meus pés

suas lágrimas vagarosas

 

minha coragem parva

não posso mais lembrar sobre nomes

 

como foi que nos conhecemos

quando ressinto isso sinto só sua mão no meu cabelo


andrejcaetano

Koichi Ito
Koichi Ito

sexta-feira, 1 de maio de 2020

tinir

não tem ninguém na rua     nem carro nem adolescente nem assassino

olho bem os olhos dela       não quero beijos nem lutas


                                            [só quero ver um trem num túnel]

cruzo os braços em volta dos joelhos e colo o queixo sobre um

 

a gente olha um para a casa do outro

ela é bonita    parece um telegrama

 

três estrelas cadentes uma fitinha do bonfim

ela diz: “você é bonito     é    você é sim”

andrejcaetano
Nicholas Garlab



domingo, 12 de abril de 2020

tique-taque


Barulho –
            uma poesia
decodificava
o nexo do tempo
                       E o tempo, desconexo,
                                               às vezes solfejava
                                   às vezes gralhava

Poesia –
            um murmúrio
o influxo do tempo
informava
                                   E o tempo, no afluxo,
                                               às vezes gotejava
                                               às vezes jorrava

Entre a lacuna e a praia o tempo brincava
Brincadeira com começo meio e trava
andrejcaetano


sexta-feira, 3 de abril de 2020

longo poema de natação


venho por meio deste ritmo eletrificado dizer ó quimera avança tu sozinha e deixa meu cabelo medusa crescer serpente com cloro e fumo que um esforço é tudo que se pode. as coisas. essa ameba. eu. como queira você mas o normal sempre me trouxe cavidades do tudo ou nada. este sempre foi o debate! maravilhas me dirão de cidades como se fossem algo sem povo. como se fossem gigantes. me dirão sobre mulheres como se elas fossem amor e sexo sem gênero a lhes impor. me dirão muito mais porque só o que salva é o coração. como se fosse apenas dizer para si no espelho: ó meu coração. quanta porta. venho por meio desta fechadura dizer que não tenho controle sobre o que quero. não quero nada. quero tudo. mora em meu banheiro um demônio de nome belial. dorme sossegado e não tem nada a sugerir para o meu mal ou para o mal que eu deva promover. ressona desinteressado. em minha sala vivem anjos que adoram pipoca e televisão. ó deus de djakarta! queime minha televisão! venho por meio deste computador referendar que quero morrer qualquer um e já. o passado dói gelo no meu estômago apenas porque esteve parede na minha mão e virou fotografia. o mesmo engano de pensar que belas palavras são a precisão de uma poesia. estou aqui neste prédio velho e barulhento para afirmar que da praia a visão do mar me acalma e que gosto do caminho sem gentes no início da noite e da chuva que me trespassa como se fosse ela a mão do deus e que sofro muito vendo gente humilhada e na igreja domingo quando vou sei que não interessa o medo porque agora naquela hora de qualquer morte amém e não faço nada mas não dou esmola. isso é tudo o que sou: um olhar vaidoso. um bicho que reza. apesar dessa sapiência ter chegado ao pulmão não consigo parar de mirar a piscina da cidade para ver como meus pares nadam e inverno longos verões de prostração até perceber que não sou peixe de piscina. paciência. venho por meio deste poema longo de natação dizer que a angústia de morar na beira da cidade não me avassala mais como se fosse um rei protetor a mão do deus e não a chuva que passa. que sou sozinho. que não quero nada. que o vazio é o recipiente. que a lagartixa está magra por que o inverno foi seco. que ganho pouco. que leio muito. que creio em paz. que confirmo minhas culpas em qualquer tribunal. venho por meio desta língua ancestral quebrar o ritmo de ser querendo tudo e afirmar que estou cansado demais para continuar achando que eu dirijo a minha nau. que d’agora por diante será como eu puder. um bicho do deus.
andrejcaetano

Liza Kanaeva Hunsicker

quinta-feira, 2 de abril de 2020

fronteiriças

"I am, by calling, a dealer in words; and words are, of course, the most powerful drug used by mankind"
Rudyard Kipling


certamente que Benjamin morreu para cruzar uma fronteira e Bruno Schultz morreu por não ter cruzado fronteiras e Sandor Marai empacou para nunca mais em uma fronteira e Faulkner não tinha fronteiras e Pound erigiu uma fronteira vertical e inútil e Beckett ficou murmurando meia vida inteira “há uma fronteira no meio do caminho” e Gordimer perguntou a Coetzee “não consegues ver a fronteira?” e Whitman não reconhecia fronteiras e Gabriel Garcia Márquez fez suco de fronteira e deu para as tristes putas beberem e Naipaul transfronteirizou e certamente fronteira é uma abstração que o erutidismo acadêmico desconhece: o apego pegajoso delirante tosco grosso brusco nauseabundo inebriante das palavras, como no conto de Kafka em que o que importa é o macaco em cima do realejo

andrejcaetano
Renan Ozturk