terça-feira, 29 de dezembro de 2015

nhenhenhen'eng

a empreita lusitana fomentou venturas e comércios
em este tão nosso e mui amado chão
derrubou-se pau
exportou-se pau
derrubou-se gente
importou-se gente

mas daqui
antes
muito antes
a grande nação tupi
já identificara
ainda lá do outro lado do mar
um povo inteiro navegando na direção errada
comandados todos por um tal de
Diogo Cão


peró ygar-usu              cacos de vidro             brejos da cruz
andrejcaetano

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

parque nacional

como não se entristece o observador
ao ver o varadero pelo qual
grumos cinzentos atravessam
a cerca da Serra do Curral?

aquele pedaço o quis o feitor
e o levaram embora de trem
para retornar, talvez, como trator

ficou o buraco l’em cima
passagem de nuvem
entre BH e Nova Lima
andrejcaetano dezembro 2000

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

pierre prêt-à-porter

Dentre as proposições gerais
Há as aplicadas a pertinências
 – são evidentemente estruturais

Há outras, também gerais,
Aplicadas a situações
– objetivas, materiais

Para além de ambas, delas mesmas, relações simbólicas
As ordens básicas e primeiras
Transmutadas em distinções hiperbólicas

Ei, atenção!: a autonomização da ordem cultural é metodológica

Diferenças da dura realidade
Exponenciadas pelas distinções simbólicas
– roupagens, linguagens, pronúncias, bons modos, um só bom gosto

Fazer do viver a bela arte
Coerções reais em regras culturais
Naturalmente

Bens em signos
As ações mais racionais em atos de comunicação
– eis a encantadora face das convenções

Sói de ser que refinamento fútil e útil é lazer
O que requer tempo para nada
O que depende de sua situação

Logo, deveras poucos:
A ralé jamais joga o jogo diferença-distinção
Só os privilegiados fazem sentidos iguais aos deles

Ei, atenção!: a autonomia simbólica é relativa:
Relações de sentido expressam relações de força
– eis a cara velha e encarquilhada da dominação

Mas não se iluda: não há subjetividades nem empates
Os engates e desengates entre situações e posições
Possuem mais realidade que os sujeitos seus peões
andrejcaetano

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

clean slate

são tristes os fins
e os meios são meio

o início é lindo
no início não há nada
página em branco vinda alva da eternidade

depois começam os rabiscos os desenhos multicolores
e depois desses depois
sustos:
há pouco espaço para os meios da página
[há margens]
e o que há fragmentado está

tão linda era a tua tal página em branco

mas agora há nela
atos contra atos
                         [sons]
relatos
expectativas
fatos
mal entendidos
contratos
            [os de jure e os de facto]
metas agendas
            [contra elas os calendários]
relatórios insensatos

há agora fins sem meios   meios sem fim   fins ao meio

e retratos
andrejcaetano

sexta-feira, 5 de junho de 2015

saint andres-des-arts [onde gerúndio aceita o amor]

I
o silêncio deve ser silencioso,
a cabeça recostada no desenho,
ua mão a amaciar a nuvem desdenhada e seu trovão delicado
com brincadeira
e quimera
pois a palavra não é o tempo todo criação

pode ser a pintura do rio esgotado
a nova estação de tratamento
periquito em eucalipto incendiado
bate-estaca o piano do puteiro
o requinte da umidade
o ralo do raramente

II
pois,
de letras ásperas é esse veludo tecido
e para revelar seu espectro em som
[para ver o som, não para ouvir a forma]
muito linfaticamente ele diluiu sua matéria:

III
o amor se foi. não que ele tenha se acabado. cresceu
arrumou um emprego       casou-se
teve filhos    saiu de férias     separou-se
recompôs-se

o amor se foi
não que ele tenha partido
apenas amadureceu
caiu do galho abrigou insetos alimentou pássaros 

o amor se foi muito lentamente
o amor se foi tão lentamente
que nunca partiu
nunca existiu nunca foi hoje         uma fatalidade

o amor se foi sem nunca ter chegado
sem nunca ter ido
é só uma cama um ombro uma caverna
o silêncio de uma palavra revoando

lençol branco vendido em magazan de Paris Meca
Manga Aberdeen Aldebarã
o amor vestido alvo
semi-levantado

som-gema
expressão que bem podia ser de dor [e é]
mas é [também]
a outra face do vai-e-vem orto-umidificado

o amor assim
trans-passant
reflexo-carne
toda possibilidade

duas gotas de qualquer líquido
mar bravio
navio pio a perguntar a si
‘para onde agora, capitão?’
andrejcaetano

quinta-feira, 4 de junho de 2015

longo poema do não porvir

um maestro, uma orquestra, uma plateia, fruição, aplausos. a filha disse para a mãe: ‘eu quero’. a mãe ficou quieta [‘pode ser que querer seja poder’]. vários touros, um toureiro, o toureiro mata todos, um a um, mais cedo do que mais tarde. admirando a bisteca a mulher do toureiro, mãe da menina, denegriu a imagem da festa: ‘um matadouro decente seria mais humano’. a ressaca passou enfim, o céu ficou azul e o mar, mais calmo; relativamente, mar nunca fica bravo, mar embravece. o mar nasceu de muitas caudas de cometas que se chocaram ao ver planeta tão rochoso. stanislaw não teve nada a ver com isso. nem isaac, nem charles. tantos homens brilharam enquanto as mulheres domesticavam. uma pessoa tem que ser submetida a rigorosa educação e treinamento desde o nascimento para aceitar sem maiores embravecimentos o destino de cozinheira, arrumadeira, faxineira. passadeira. descuidam-se de tudo isso os demais enquanto dirigem bem norteados suas vidas já transitadas em julgado a se completarem nas oportunidades liquidamente naturais. deve ser diferente quando não existe porvir. deve ser excruciante ter que buscar sentido no não porvir. rezava-se muito antes, jogava-se tudo no colo de deus, a velhice chegava cedo, a morte também, ‘melhor assim, que deus a tenha’ [prelúdio número um de villa lobos]. na contemporaneidade, que deus a tenha, compra-se uma televisão, sonha-se até. já é algo. comida. não se deve reclamar de barriga cheia. mas deve ser muito estranho não ter porvir com a barriga cheia. música sem harmonia nem melodia. vazio. se houvesse como contar a história do vazio seria assim?: era uma vez um homem que saiu de sua casa bem cedo, caminhando, descalço, em direção ao hemisfério norte-ocidental. o homem que saiu de casa bem cedo caminhando descalço em direção ao hemisfério norte-ocidental andou cento e quarenta nove dias. em belmopan um velho lhe deu um par de botas. em real de catorce um menino lhe deu um casaco de couro. ao chegar em fleur de lys lhe disseram que nem mesmo jesus andaria sobre águas tão frias. ele deu de ombros. afogou-se após caminhar quatorze milhas náuticas sobre águas geladas. afundou sem ressaltos, sumiu cento e quarenta nove dias após ter sumido das vistas dos que falavam a língua de seu dia a dia. se houvesse como contar a história do nada ela poderia ser assim? mil e uma variações, allegro, moderato, andante, presto terminando bruscamente, como quem não tem porvir nem por ir e não foi rigidamente educada desde o nascimento dos oceanos para não ser.

andrejcaetano

quarta-feira, 11 de março de 2015

things we lose in the fire

accept the good
you
stuff burned out in the fire
is just stuff
cars
the good you can
do
accept the deed
neither right nor wrong
no need to rewind
no need to remind
accept the time
burned out in the rain
what’s gone
no need to share
to confide or to confess
no need to restrain
accept the ends
the ways that bend
the soundless
what no one needs to hear
ears don’t take you there
they don’t contain
accept that words are often like stuff
needless
andrejcaetano

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

mineração

não    não há palavra dada
nenhuma proposta
nonada
bosta

medo inho de ir sozinho
medo ão de ficar furacão
resistência coisa de chuveiro
desdentado horizonte mineiro

montes ãos tão inhos
indo embora
lajedões
casquinhas
vagalhões
caçambinhas
buraco morto
montanha delindo-se no porto
andrejcaetano