segunda-feira, 13 de maio de 2013

gerúndio e o fim da península


I
Edgar
quando começou
estava solidário com os mestres posteriores:
un der ground nos cinemas berlinenses
o cabaré onde todos furaram a orelha esquerda.
Orelhas furadas
enquanto nada acontecia
em mais aquele dia da história.

II
Foi preciso um ataque de paranoia na baixa de Lisboa
para que Gerúndio cessasse a procura.

Não havia mesmo outro país pela frente.
Foi para o aeroporto no começo da noite.

Não tirou fotos. Não anotou endereços.
Por que menosprezou o meio?

III
Pensa em não ter peso mais. Seria melhor
a mão alva das noites em que não dorme
sufocado sob o peso masculino
de querer voar.

Sopesa isso ao que as mulheres sonham.
andrejcaetano

segunda-feira, 6 de maio de 2013

longo trecho em declive



tão semente sem companhia a dirigir o automóvel na companhia de amadas nós tertúlicos de volta para casa para viver o que é nosso sem a companhia de ninguém que é assim a nossa essência e noção. as boas lembranças da criança e do adolescente estavam boas lambanças flambadas pelo tempo da fazenda que se fez basáltica nos milhões de anos que antecederam sua colonização. decerto. entrementes outros acontecimentos. o fim das férias. o fim da pista dupla. o fim do acostamento no início da terceira pista nos aclives. o fim desta no fim dos aclives.
o fim da estrada nos perímetros urbanos dessas cidades que salpicam o caminho entre as regiões metropolitanas e as zonas rurais de canaviais e prados de soja. o fim da parada para o almoço lanche xixi. o fim sempre à frente no caminho sem fim. teria havido até o fim da concretude da poesia da indagação do paraquê da precisão da intuição. houve até mesmo o fim da vontade de que as férias não terminassem nunca [lembranças às vezes são graça às vezes são pura perda de tempo e   este sim   nunca haverá de ter fim] assim como há sempre fim para afetos ou para eles envelhecidas substâncias. o fim de tudo.
para que se aja em novas fragrâncias. haverá silêncio enquanto elas se constituem novas e belos dias de caminhos de volta. a luz claridade sol o olho do mês de julho próximo ao trópico de câncer descia bem no meio do cu do cerrado. a lonjura das coisas no horizonte da circularidade do ano. a criança adormecera no recanto que lha cabe ao fim da muita aflição com o sem-fim. a adolescência também sossegara no recanto das eternidades de abulia calcinante das paisagens laterais que sempre lha encantarão. encanto que foi e o que foi e passou. por isso venta. para isso o vento. curva acentuada a direita. lombada. faixa contínua. proibido ultrapassar. polícia rodoviária federal a 500 metros. longo trecho em declive. verifique os freios. lá em baixo um policial no meio da pista vai parando todos. no meio da pista há um morto com uma das mãos para fora da lona laranja que lhe cobre o corpo. a mão soluça. bananeira na secura. no rádio do policial uma voz fanha informa que é o corpo de um plantador de abóbora. o plantador de abóbora jaz ao fim do longo trecho em declive. a estrada segue. serpenteando.

andrejcaetano

quinta-feira, 25 de abril de 2013

luz a vida


Saudade do antes é nostalgia
Passarinho com vertigem
Pia o canto da melancolia

Cobertor na friagem
Saudade sã é objetiva
Alento fim da viagem

Não cubra com sonhos expectativas
A esperar uma eternidade
No Assaré chorou a patativa

Sonhos são meras imagens
Finda a noite a claridade
Luz a vida sem miragens


andrejcaetano