sexta-feira, 6 de outubro de 2017

a função psiquiátrica da noite

Por que eu fico à noite
             eu fico a noite
             a noite fica eu
             nós dois sozinhos
             cobertor e breu

O que à noite é nada
             um tempo
             parada
             o que a noite não pede nem dá
                        um suspiro
                        um ai
                        uma macarronada
na manhã se desfaz
entupindo de coisas os oásis

[até a poesia se suja nas tintas
que as pessoas vestem]

Por que a noite vai
            ela joga eu
            no colo da manhã

De dia a noite vira eu
bípede teso refluxivo
meditabundo
vomitativo
andrejcaetano
Hengki Koentjoro

sábado, 2 de setembro de 2017

soneto sobre a cidadania

Eu devo a mim mesmo um poema remanso
            Que saia vista a minha cabeça
            Um poema esconso
            Vítima herói e grande lambança

Não devo nada a mim mesmo
            Uma cidade-Sidney que desapareça
            Cachaça e seu antídoto torresmo
            Um souvenir que apague a lembrança

Ninguém deve nada a ninguém
            Vida imagem tranquilidade
A paz não mora em outrem

Toneladas de irrealidades
Milhares de estações de trem
            Tu és cidadão de qual cidade?
andrejcaetano
[Tim Corbeel]

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

resposta-telegrama pcc

recebi teu telegrama
sim      sei lá
as duas primeiras frases
vêm dos deuses
dizem
e o resto
é
às vezes vômito
às vezes alma
[quase sempre
a mesma coisa]

um abraço é que era pra gente se dar
nesta madrugada
neste lençol azul
deste arco-íris de setembro

[são duas horas da manhã
e escrever é um mar]

felicidades aí
nesse teu amor já tão duradouro
isso é ouro
mais eu não sei
que os meus foram fugazes
depois
nunca mais

e agora? sei lá
algumas vezes tento listar
e é tanto
o que tenho a fazer
que desembesto
e basto
e paro
antes de começar

e escrevo
que escrever é que é o mar

passa um jato no céu
o rastro alvo de um arco-íris no liquidificador

falando nisso
proponho
que você continue muito morena
e decrete que permaneçamos
a margem esquerda do rio doce

liga não
escrever é assim
um mar
e é te ter neste lençol azul de setembro
andrejcaetano - 1985
Dean Hampney

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

uruará

apesar da distância padecer de profundidade
o alto falante da praça me sacode o ócio
enquanto pilhas de questionários eu miro beócio

ao fim e ao cabo vislumbro alguma possibilidade
nem tão longe assim foi Drummond de Itabira
para se livrar dessa avemaria que agora me pira                                              andrejcaetano
Tatyana Druz

domingo, 13 de agosto de 2017

confession to my undead dad

passos largos
teus pés arrastam
a dor que dá
outra voz
outra casa
outra noite
esperança a outra face do súbito
que um suspiro foi tudo
que um suspiro
foi
andrejcaetano
Viki Kollerova

quinta-feira, 13 de julho de 2017

detroit

                                                        andrejcaetano
o tempo é uma pista
uma faixa
uma listra
uma linha
o tempo é um risco

iguana grávida engarrafada
impregnada de má sinalização
de momento-curva
impossibilidade de correção
tempo-tempo
William Egglestone

sexta-feira, 7 de julho de 2017

foi assim que a manhã despertou

longa garantia floresceu de manhã
quando o primeiro ônibus passou.
amanheceram escolares. mães
balançaram seus corpos e respingaram
tarefas. daniele pensou que foi
bom estabelecer certa distância de
suas penas. já era hora. um corcunda
dito josonor era coveiro e recém
chegada de frança afrodite sentiu falta
do metrô. jornalistas seguiram
empenhados atrás do rumo do
extravio. pois foi por isso que uma
esbelta preguiça se levantou e
esfumaçou [só o asfalto conhece os
seus bichinhos]. não há dúvida na
chuva foi o que comprovou o porteiro
da noite e ficou muito satisfeito em
sentir a certeza. foi assim que
o primeiro ônibus passou e viu
o sorriso na boca de um insone
florescendo com a manhã. um dia a
gente desabrocha mesmo que seja
machado
 andrejcaetano

segunda-feira, 26 de junho de 2017

entomologia poética

alexandre – pródigo homem de conquistas –
tanto relativizou invasões
que morreu um cactus

o castiçal de baudelaire alumiou o lusco-fusco da aurora borealis
baudelaire era o tal surfista prateado

fábio máximo tanto relativizou aníbal
que foi aclamado en circus
e morto na própria ronda

das quasi-simbolism de rimbaud ist mute
rimbaud fructus

césar – um talento para avaliações –
tanto relativizou a família
que pariu um brutus

mallarmé tem o poder de andar com a arma destravada
mallarmé...depois veio quem?
andrejcaetano
Josef Koudelka

domingo, 25 de junho de 2017

pique-esconde

energia preciosa despendi para provar-me que sonetos são peçazinhas de bordar
quão bobo

não mereciam nem meio regurgito de minha babaquice
pós-prandial

o grande lance sempre foi brincar de roda
pegadô

estupidi-ficar
como bom estupidi-ficador                                    andrejcaetano
Malick Sidibé