sexta-feira, 3 de julho de 2020

gêneros i

Agora

teu sexo

sugando meus verbos

 

 Depois

 minha caneta

 rabiscando teus espíritos

 

andrejcaetano

Njideka Akunyili Crosb


sábado, 23 de maio de 2020

lápis-lázuli


ela colocou os cotovelos sobre a mesa de vidro

mirou o chão por muito tempo

 

meus pés

suas lágrimas vagarosas

 

minha coragem parva

não posso mais lembrar sobre nomes

 

como foi que nos conhecemos

quando ressinto isso sinto só sua mão no meu cabelo


andrejcaetano

Koichi Ito
Koichi Ito

sexta-feira, 1 de maio de 2020

tinir

não tem ninguém na rua     nem carro nem adolescente nem assassino
olho bem os olhos dela       não quero beijos nem lutas

                                            [só quero ver um trem num túnel]
cruzo os braços em volta dos joelhos e colo o queixo sobre um

a gente olha um para a casa do outro
ela é bonita    parece um telegrama

três estrelas cadentes uma fitinha do bonfim
ela diz: “você é bonito     é   você é sim”
andrejcaetano
Nicholas Garlab



domingo, 12 de abril de 2020

confissão


a menina olhou para mim e disse: 'moldura é para emolduráveis figuras'
é

'ouça-me', ela continuou
'a mim a morte vai muito bem e ninguém sabe

mas antes devo me perder no mar
com meus livros sobre as gentes antigas...'

bicho novo
toma tempo graduar as atitudes conforme a sonoplastia do vento
andrejcaetano

quinta-feira, 9 de abril de 2020

relações perversas - II

fuma angústia
          o gozo é o barato do real

vibra dor
          a obra prima pela imagem

imagina ferida
           quanto custou? o valor é simbólico

andrejcaetano

@archillect

sexta-feira, 3 de abril de 2020

longo poema de natação


venho por meio deste ritmo eletrificado dizer ó quimera avança tu sozinha e deixa meu cabelo medusa crescer serpente com cloro e fumo que um esforço é tudo que se pode. as coisas. essa ameba. eu. como queira você mas o normal sempre me trouxe cavidades do tudo ou nada. esse sempre foi o debate! maravilhas me dirão de cidades como se fossem algo sem povo. como se fossem gigantes. me dirão sobre mulheres como se elas fossem amor e sexo sem gênero a lhes impor [às vezes geléia de carne por onde eu escorro rego sem ética]. me dirão muito mais porque só o que salva é o coração. como se fosse apenas dizer para si no espelho: ó meu coração. quanta porta. venho por meio desta fechadura dizer que não tenho controle sobre o que quero. não quero nada. quero tudo. mora em meu banheiro um demônio de nome belial. dorme sossegado e não tem nada a sugerir para o meu mal ou para o mal que eu deva promover. ressona desinteressado. em minha sala vivem anjos que adoram pipoca e televisão. ó deus de djakarta! queime minha televisão! venho por meio deste computador referendar que quero morrer qualquer um e já. o passado dói gelo no meu estômago apenas porque esteve parede na minha mão e virou fotografia. o mesmo engano de pensar que belas palavras são a precisão de uma poesia. estou aqui neste prédio velho e barulhento para afirmar que da praia a visão do mar me acalma e que gosto do caminho sem gentes no início da noite e da chuva que me trespassa como se fosse ela a mão do deus e que sofro muito vendo gente humilhada e na igreja domingo à noite quando vou sei que não interessa o medo porque agora naquela hora de qualquer morte amém e que não faço nada mas não dou esmola. isso é tudo o que sou: um olhar vaidoso. um bicho que reza. apesar dessa sapiência ter chegado ao pulmão não consigo parar de mirar a piscina da cidade para ver como meus pares nadam e inverno longos verões de prostração até perceber que não sou peixe de piscina. paciência. venho por meio deste poema longo de natação dizer que a angústia de morar na beira da cidade não me avassala mais como se fosse um rei protetor a mão do deus e não a chuva que passa. que sou sozinho. que não quero nada. que o vazio é o recipiente. que a lagartixa está magra por que o inverno foi seco. que ganho pouco. que leio muito. que creio em paz. que confirmo minhas culpas em qualquer tribunal. venho por meio desta língua ancestral quebrar o ritmo de ser querendo tudo e afirmar que estou cansado demais para continuar achando que eu dirijo a minha nau. que d’agora por diante será como eu puder. um bicho do deus.
andrejcaetano

Liza Kanaeva Hunsicker

quinta-feira, 2 de abril de 2020

fronteiriças

"I am, by calling, a dealer in words; and words are, of course, the most powerful drug used by mankind"
Rudyard Kipling


certamente que Benjamin morreu para cruzar uma fronteira e Bruno Schultz morreu por não ter cruzado fronteiras e Sandor Marai empacou para nunca mais em uma fronteira e Faulkner não tinha fronteiras e Pound erigiu uma fronteira vertical e inútil e Beckett ficou murmurando meia vida inteira “há uma fronteira no meio do caminho” e Gordimer perguntou a Coetzee “não consegues ver a fronteira?” e Whitman não reconhecia fronteiras e Gabriel Garcia Márquez fez suco de fronteira e deu para as tristes putas beberem e Naipaul transfronteirizou e certamente fronteira é uma abstração que o erutidismo acadêmico desconhece – o apego pegajoso delirante tosco grosso brusco nauseabundo inebriante das palavras em quem vive delas e nelas como no conto de Kafka em que o que importa é o macaco em cima do realejo

andrejcaetano
Renan Ozturk






sexta-feira, 27 de março de 2020

mitológicas - III


narciso fingia caçador caçando nos bosques
fazia mesmo desfilar

narciso gostava embevecer conquistar
bochechar expelir

echo ninfa capturada-repelida
errou pelos bosques até virar som

nêmeses não tardou
matou narciso de narcisismo
andrejcaetano

Lauren Treece

quarta-feira, 25 de março de 2020

gerúndio [ergo sum]

gerĕre, 'fazer, produzir, executar'

foi
violando regras e admirando donzelas e brincando com os ditados e fabricando noivados e enganando os enganáveis e dizendo ‘ó que sonho estranho sonhei noite passada dentro do coletivo’ (viu o tempo de hábito franciscano e cabeça raspada enquanto um romeno apressado lhe garantia que era seu parente distante via um obscuro amanuense romano) e esperando o próximo ponto e contando seu parco dinheiro e lembrando quantos anos já havia e roubando olhares e inalando fumaças e sonhando com sinos que arranham os ouvidos na madrugada e depois deles os galos que sofejam um azedo “tá na hora!” “já passou!” tudo por assim dizer em termos mais precisos gerundiando não chegando não passando tudo esquisito gritou “mãe!” sua mãe preocupada acorreu na madrugada “meu filho! é só mais um pesadelo!” e ele lha explicou “não mãe! é gerúndio! se falássemos o tupi eu dormia tranquilo” e a mãe pensando consolar “filho, o tupi tem gerúndios”
pois
não prestando muita atenção na própria sorte e esquecendo aquelas nacionalidades acordou tonto e só em um trem andaluz o Gerúndio de sempre

andrejcaetano
@BlinkArmada


quarta-feira, 18 de março de 2020

mitológicas - II

it would never live out
yet he waited in void

to when they were nil to each other
[or nyx  daughter of the no-cycle]

oblivion before sisyphus plays another act
[no circus]

let ero’s wife brace for aphrodite impact
[no circle]
andrejcaetano
Gustav Vigeland