sexta-feira, 2 de setembro de 2016

uma hora

Meia hora eu pensava em
caruncho alicate absorvente
uma oração coordenada aditiva
o trem que ela perdeu
o transporte que não me levou
o retorno sem comitiva
meio tablete de alegria
pelúcia espirro alergia

Na meia hora seguinte eu pensava que
basta olhar um túmulo
um céu cheio de tucano estridente
um bando deles cruzando o rio
ou duzentos e nove grous
engrouvinhados pontificando um fio
que o corpo é um fim para encaixes
que as palavras faíscam do eu

E antes que a hora inteira soasse
eu tentava as coisinhas pequeninas
[fiapo de manga entredentes
bicicleta na orla do mar
picolé de cajá
dia que vai ser muito quente]
para que uma outra assim
nunca mais retornasse

andrejcaetano

sexta-feira, 24 de junho de 2016

moinhos da redenção


quando
ao escrever
ficava queria esperava fazer
sair a tristeza e a angústia paternal
cria que iria chorar ao tocar os lamentos
que descem pelo ladrão da lagoa dos dissabores

cria ser preciso chorar
para tornar-se rocha

os equívocos a aflição o vazio
não apareceram
sequer lacrimejei

não ornei-me rocha

está tudo aí:
os bem-te-vis predadores
e os horários marcados
andrejcaetano

sexta-feira, 13 de maio de 2016

recordação do país infantil

A estação da estrela d'alva. Uma lanterna de hotel. O mar cheiinho de siris.
Um camisolão. Conchas. 
Vamos à praia das Tartarugas! 
O menino foi pegado dando, atrás do monte de areia. 
O carro plecpleca nas ruas. 
O trem vai vendo o Brasil. 
O Brasil é uma República Federativa cheia de árvores e de gente dizendo adeus. 
Depois todos morrem. 
Oswald de Andrade                                 

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

nhenhenhen'eng

a empreita lusitana fomentou venturas e comércios
em este tão nosso e mui amado chão
derrubou-se pau
exportou-se pau
derrubou-se gente
importou-se gente

mas daqui
antes
muito antes
a grande nação tupi
já identificara
ainda lá do outro lado do mar
um povo inteiro navegando na direção errada
comandados todos por um tal de
Diogo Cão


peró ygar-usu              cacos de vidro             brejos da cruz
andrejcaetano

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

parque nacional

como não se entristece o observador
ao ver o varadero pelo qual
grumos cinzentos atravessam
a cerca da Serra do Curral?

aquele pedaço o quis o feitor
e o levaram embora de trem
para retornar, talvez, como trator

ficou o buraco l’em cima
passagem de nuvem
entre BH e Nova Lima
andrejcaetano dezembro 2000

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

pierre prêt-à-porter

Dentre as proposições gerais
Há as aplicadas a pertinências
 – são evidentemente estruturais

Há outras, também gerais,
Aplicadas a situações
– objetivas, materiais

Para além de ambas, delas mesmas, relações simbólicas
As ordens básicas e primeiras
Transmutadas em distinções hiperbólicas

Ei, atenção!: a autonomização da ordem cultural é metodológica

Diferenças da dura realidade
Exponenciadas pelas distinções simbólicas
– roupagens, linguagens, pronúncias, bons modos, um só bom gosto

Fazer do viver a bela arte
Coerções reais em regras culturais
Naturalmente

Bens em signos
As ações mais racionais em atos de comunicação
– eis a encantadora face das convenções

Sói de ser que refinamento fútil e útil é lazer
O que requer tempo para nada
O que depende de sua situação

Logo, deveras poucos:
A ralé jamais joga o jogo diferença-distinção
Só os privilegiados fazem sentidos iguais aos deles

Ei, atenção!: a autonomia simbólica é relativa:
Relações de sentido expressam relações de força
– eis a cara velha e encarquilhada da dominação

Mas não se iluda: não há subjetividades nem empates
Os engates e desengates entre situações e posições
Possuem mais realidade que os sujeitos seus peões
andrejcaetano

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

clean slate

são tristes os fins
e os meios são meio

o início é lindo
no início não há nada
página em branco vinda alva da eternidade

depois começam os rabiscos os desenhos multicolores
e depois desses depois
sustos:
há pouco espaço para os meios da página
[há margens]
e o que há fragmentado está

tão linda era a tua tal página em branco

mas agora há nela
atos contra atos
                         [sons]
relatos
expectativas
fatos
mal entendidos
contratos
            [os de jure e os de facto]
metas agendas
            [contra elas os calendários]
relatórios insensatos

há agora fins sem meios   meios sem fim   fins ao meio

e retratos
andrejcaetano

sexta-feira, 5 de junho de 2015

saint andres-des-arts [onde gerúndio aceita o amor]

I
o silêncio deve ser silencioso,
a cabeça recostada no desenho,
ua mão a amaciar a nuvem desdenhada e seu trovão delicado
com brincadeira
e quimera
pois a palavra não é o tempo todo criação

pode ser a pintura do rio esgotado
a nova estação de tratamento
periquito em eucalipto incendiado
bate-estaca o piano do puteiro
o requinte da umidade
o ralo do raramente

II
pois,
de letras ásperas é esse veludo tecido
e para revelar seu espectro em som
[para ver o som, não para ouvir a forma]
muito linfaticamente ele diluiu sua matéria:

III
o amor se foi. não que ele tenha se acabado. cresceu
arrumou um emprego       casou-se
teve filhos    saiu de férias     separou-se
recompôs-se

o amor se foi
não que ele tenha partido
apenas amadureceu
caiu do galho abrigou insetos alimentou pássaros 

o amor se foi muito lentamente
o amor se foi tão lentamente
que nunca partiu
nunca existiu nunca foi hoje         uma fatalidade

o amor se foi sem nunca ter chegado
sem nunca ter ido
é só uma cama um ombro uma caverna
o silêncio de uma palavra revoando

lençol branco vendido em magazan de Paris Meca
Manga Aberdeen Aldebarã
o amor vestido alvo
semi-levantado

som-gema
expressão que bem podia ser de dor [e é]
mas é [também]
a outra face do vai-e-vem orto-umidificado

o amor assim
trans-passant
reflexo-carne
toda possibilidade

duas gotas de qualquer líquido
mar bravio
navio pio a perguntar a si
‘para onde agora, capitão?’
andrejcaetano