sexta-feira, 5 de junho de 2015

saint andres-des-arts [onde gerúndio aceita o amor]

I
o silêncio deve ser silencioso,
a cabeça recostada no desenho,
ua mão a amaciar a nuvem desdenhada e seu trovão delicado
com brincadeira
e quimera
pois a palavra não é o tempo todo criação

pode ser a pintura do rio esgotado
a nova estação de tratamento
periquito em eucalipto incendiado
bate-estaca o piano do puteiro
o requinte da umidade
o ralo do raramente

II
pois,
de letras ásperas é esse veludo tecido
e para revelar seu espectro em som
[para ver o som, não para ouvir a forma]
muito linfaticamente ele diluiu sua matéria:

III
o amor se foi. não que ele tenha se acabado. cresceu
arrumou um emprego       casou-se
teve filhos    saiu de férias     separou-se
recompôs-se

o amor se foi
não que ele tenha partido
apenas amadureceu
caiu do galho abrigou insetos alimentou pássaros 

o amor se foi muito lentamente
o amor se foi tão lentamente
que nunca partiu
nunca existiu nunca foi hoje         uma fatalidade

o amor se foi sem nunca ter chegado
sem nunca ter ido
é só uma cama um ombro uma caverna
o silêncio de uma palavra revoando

lençol branco vendido em magazan de Paris Meca
Manga Aberdeen Aldebarã
o amor vestido alvo
semi-levantado

som-gema
expressão que bem podia ser de dor [e é]
mas é [também]
a outra face do vai-e-vem orto-umidificado

o amor assim
trans-passant
reflexo-carne
toda possibilidade

duas gotas de qualquer líquido
mar bravio
navio pio a perguntar a si
‘para onde agora, capitão?’
andrejcaetano

quinta-feira, 4 de junho de 2015

longo poema do não porvir

um maestro, uma orquestra, uma plateia, fruição, aplausos. a filha disse para a mãe: ‘eu quero’. a mãe ficou quieta [‘pode ser que querer seja poder’]. vários touros, um toureiro, o toureiro mata todos, um a um, mais cedo do que mais tarde. admirando a bisteca a mulher do toureiro, mãe da menina, denegriu a imagem da festa: ‘um matadouro decente seria mais humano’. a ressaca passou enfim, o céu ficou azul e o mar, mais calmo; relativamente, mar nunca fica bravo, mar embravece. o mar nasceu de muitas caudas de cometas que se chocaram ao ver planeta tão rochoso. stanislaw não teve nada a ver com isso. nem isaac, nem charles. tantos homens brilharam enquanto as mulheres domesticavam. uma pessoa tem que ser submetida a rigorosa educação e treinamento desde o nascimento para aceitar sem maiores embravecimentos o destino de cozinheira, arrumadeira, faxineira. passadeira. descuidam-se de tudo isso os demais enquanto dirigem bem norteados suas vidas já transitadas em julgado a se completarem nas oportunidades liquidamente naturais. deve ser diferente quando não existe porvir. deve ser excruciante ter que buscar sentido no não porvir. rezava-se muito antes, jogava-se tudo no colo de deus, a velhice chegava cedo, a morte também, ‘melhor assim, que deus a tenha’ [prelúdio número um de villa lobos]. na contemporaneidade, que deus a tenha, compra-se uma televisão, sonha-se até. já é algo. comida. não se deve reclamar de barriga cheia. mas deve ser muito estranho não ter porvir com a barriga cheia. música sem harmonia nem melodia. vazio. se houvesse como contar a história do vazio seria assim?: era uma vez um homem que saiu de sua casa bem cedo, caminhando, descalço, em direção ao hemisfério norte-ocidental. o homem que saiu de casa bem cedo caminhando descalço em direção ao hemisfério norte-ocidental andou cento e quarenta nove dias. em belmopan um velho lhe deu um par de botas. em real de catorce um menino lhe deu um casaco de couro. ao chegar em fleur de lys lhe disseram que nem mesmo jesus andaria sobre águas tão frias. ele deu de ombros. afogou-se após caminhar quatorze milhas náuticas sobre águas geladas. afundou sem ressaltos, sumiu cento e quarenta nove dias após ter sumido das vistas dos que falavam a língua de seu dia a dia. se houvesse como contar a história do nada ela poderia ser assim? mil e uma variações, allegro, moderato, andante, presto terminando bruscamente, como quem não tem porvir nem por ir e não foi rigidamente educada desde o nascimento dos oceanos para não ser.

andrejcaetano

quarta-feira, 11 de março de 2015

things we lose in the fire

accept the good
you
stuff burned out in the fire
is just stuff
cars
the good you can
do
accept the deed
neither right nor wrong
no need to rewind
no need to remind
accept the time
burned out in the rain
what’s gone
no need to share
to confide or to confess
no need to restrain
accept the ends
the ways that bend
the soundless
what no one needs to hear
ears don’t take you there
they don’t contain
accept that words are often like stuff
needless
andrejcaetano

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

mineração

não    não há palavra dada
nenhuma proposta
nonada
bosta

medo inho de ir sozinho
medo ão de ficar furacão
resistência coisa de chuveiro
desdentado horizonte mineiro

montes ãos tão inhos
indo embora
lajedões
casquinhas
vagalhões
caçambinhas
buraco morto
montanha delindo-se no porto
andrejcaetano

sábado, 17 de janeiro de 2015

arras

uma gente que quis dizer
dito pelo não dito

um chato certo
um errado consistente e simpático

e o meio?
e a gente maluca?

nenhuma palavra
elas todas tortas mancas manetas
andrejcaetano

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

poesis, poesis


There were ghosts that returned to earth to hear his phrases,
As he sat there reading, aloud, the great blue tabulae.
They were those from the wilderness of stars that had expected more.

There were those that returned to hear him read from the poem of life,
Of the pans above the stove, the pots on the table, the tulips among them.
They were those that would have wept to step barefoot into reality,

That would have wept and been happy, have shivered in the frost
And cried out to feel it again, have run fingers over leaves
And against the most coiled thorn, have seized on what was ugly

And laughed, as he sat there reading, from out of the purple tabulae,
The outlines of being and its expressings, the syllables of its law:
Poesis, poesis, the literal characters, the vatic lines,

Which in those ears and in those thin, those spended hearts,
Took on color, took on shape and the size of things as they are
And spoke the feeling for them, which was what they had lacked.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

the woman in the balcony [on demand]

All of a sudden
At least it seemed so then
The terrain got flat and plain
From the balcony
She starred at it long enough for the moon to change

Nothing changed
Her terrain stood flat and plain
There was no question
Nothing to answer nothing to claim

She took the pill
Two of them
Two shots of tequila
To shut down the brain
.
.
.
Kept starring at the terrain
There was no beauty there was no stain
The moon turned off its phases
Nothing to see nothing to complain
Two more shots of tequila then
‘Perhaps I am part of the terrain
 Worlds apart from any claim‘

Silence asked for silence
As the words also got flat and plain
 ‘Sure hoping is always in vain
  But mayhap tomorrow won’t be this way’
andrejcaetano