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terça-feira, 19 de maio de 2026

adiamento [Fernando Pessoa]

 

[ ? (@BlinkArmada)]

Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...

Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,

E assim será possível; mas hoje não...

Não, hoje nada; hoje não posso.

A persistência confusa da minha subjetividade objetiva,

O sono da minha vida real, intercalado,

O cansaço antecipado e infinito,

Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico...

Esta espécie de alma...

Só depois de amanhã...

Hoje quero preparar-me,

Quero preparar-me para pensar amanhã no dia seguinte...

Ele é que é decisivo.

Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não tenho planos...

Amanhã é o dia dos planos.

Amanhã sentar-me-ei à secretaria para conquistar o mundo;

Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...

Tenho vontade de chorar,

Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...

 

Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.

Só depois de amanhã...

Quando era criança o circo de domingo divertia-se toda semana.

Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância...

Depois de amanhã serei outro,

A minha vida triunfar-se-á,

Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático

Serão convocadas por um edital...

Mas por um edital de amanhã...

Hoje quero dormir, redigirei amanhã...

Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância?

Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,

Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo...

Antes, não...

Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.

Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.

Só depois de amanhã...

Tenho sono como o frio de um cão vadio.

Tenho muito sono.

Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...

Sim, talvez só depois de amanhã...

 

O porvir...

Sim, o porvir...


sábado, 21 de outubro de 2023

a coruja [itō harumi (senryū seriado)]


Uma lua [v]indo

A coruja cega

Reflete

 

--------------

 

Oráculos servem o quê?

Semblante

A coruja muda

 

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A coruja surda

Falas grava

Papagaia

 

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A coruja troncha

Canta 

E dança

Toda manhã

Masao Yamamoto



quarta-feira, 7 de dezembro de 2022

o Outro [carlos drummond de andrade]

 

Como decifrar pictogramas de há dez mil anos

se nem sei decifrar

minha escrita interior?

 

Interrogo signos dúbios

e suas variações caleidoscópicas

a cada segundo de observação.

 

A verdade essencial

é o desconhecido que me habita

e a cada amanhecer me dá um soco.

 

Por ele sou também observado

com ironia, desprezo, incompreensão.

E assim vivemos, se ao confronto se chama viver,

unidos, impossibilitados de desligamento,

acomodados, adversos,

roídos de infernal curiosidade.

Trivela


domingo, 6 de novembro de 2022

quinta-feira, 12 de março de 2020

fala [orides fontela]


Tudo
será difícil de dizer:
a palavra real
nunca é suave.

Tudo será duro:
luz impiedosa
excessiva vivência
consciência demais do ser.

Tudo será
capaz de ferir. Será
agressivamente real.
Tão real que nos despedaça.

Não há piedade nos signos
e nem no amor: o ser
é excessivamente lúcido
e a palavra é densa e nos fere.

(Toda palavra é crueldade.)
@raafat_saleh


sexta-feira, 13 de maio de 2016

recordação do país infantil [oswald de andrade]

A estação da estrela d'alva. Uma lanterna de hotel. O mar cheiinho de siris.
Um camisolão. Conchas. 
Vamos à praia das Tartarugas! 
O menino foi pegado dando, atrás do monte de areia. 
O carro plecpleca nas ruas. 
O trem vai vendo o Brasil. 
O Brasil é uma República Federativa cheia de árvores e de gente dizendo adeus. 
Depois todos morrem. 
Oswald de Andrade                                 

sexta-feira, 15 de março de 2013

mr. cogito's soul [zbigniew herbert]

In the past
we know from history
she would go out from the body
when the heart stopped

with the last breath
she went quietly away
to the blue meadows of heaven

            Mr. Cogito’s soul
            acts differently

            during his life she leaves his body
            without a word of farewell

            for months for years she lives
            on different continents
            beyond the frontiers
            of Mr. Cogito

            it is hard to locate her address
            she sends no news of herself
            avoids contacts
            doesn’t write letters

            no one knows when she will return
            perhaps she has left forever

Mr. Cogito struggles to overcome
the base feeling of jealousy

He thinks well of his soul
thinks of her with tenderness

undoubtedly she must live also
in the bodies of others

certainly there are too few souls
for all humanity

Mr. Cogito accepts his fate
he has no other way out

he even attempts to say
– my own soul mine

he thinks of his soul affectionately
he thinks of his soul with tenderness

            therefore when she appears
            unexpectedly
            he doesn’t welcome her with the words
            – it’s good you’ve come back

            he only looks at her from an angle
            as she sits before the mirror
            combing her hair
            tangled and gray
Zbigniew Herbert
[ ? ]

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

confiança [agostinho neto]


O oceano separou-se de mim
enquanto me fui esquecendo nos séculos
e eis-me presente
reunindo em mim o espaço
condensando o tempo.


Na minha história
existe o paradoxo do homem disperso


Enquanto o sorriso brilhava
no canto de dor
e as mãos construíam mundos maravilhosos


John foi linchado
o irmão chicoteado nas costas nuas
a mulher  amordaçada
e o filho continuou ignorante


E do drama intenso
duma vida imensa e útil
resultou a certeza


As minhas mãos colocaram pedras
nos alicerces do mundo
mereço o meu pedaço de chão.

Agostinho Neto

domingo, 13 de janeiro de 2013

the plural [kiki dimoula]


Love:
noun, substantive,
extremely substantive,
singular in number;
gender not feminine, not masculine,
gender defenseless.
Plural the number
of defenseless loves.

Fear:
substantive,
singular to start with
plural afterward:
fears.
Fears of
everything from now on.

Memory:
Noun, proper name for sorrows,
singular in number,
singular only,
and indeclinable.
Memory, memory, memory.

Night:
substantive,
gender feminine,
number singular.
Plural in number
the nights.
The nights from now on.

From the ‘The Brazen Plagiarist’, by Kiki Dimoula; translated by Cecile Inglessis Margellos and Rika Lessser
[ ? ]

domingo, 18 de março de 2012

o mar e o canavial [joão cabral de melo neto]


O que o mar sim aprende do canavial:

a elocução horizontal de seu verso;

a geórgica de cordel, ininterrupta,

narrada em voz e silêncio, paralelos.

O que o mar não aprende do canavial:

a veemência passional da preamar;

a mão-de-pilão das ondas na areia,

moída e miúda, pilada do que pilar.

O que o canavial sim aprende do mar: 

o avançar em linha rasteira da onda;

o espraiar-se minucioso, de líquido,

alagando cova a cova onde se alonga.

O que o canavial não aprende do mar:

o desmedido do derramar-se cana;

o comedimento do latifúndio do mar,

que menos lastradamente se derrama.

João Cabral de Melo Neto
Rene Burri

sábado, 10 de março de 2012

a educação pela pedra [joão cabral de melo neto]

Uma educação pela pedra; por lições;

para aprender da pedra, frequentá-la;

captar sua voz inenfática, impessoal

(pela de dicção ela começa as aulas).

A lição de moral, sua resistência fria

ao que flui e a fluir, a ser maleada;

a de poética, sua carnadura concreta;

1a de economia, seu adensar-se compacta;

lições da pedra (de fora para dentro,

cartilha muda), para quem soletrá-la.




Outra educação pela pedra: no Sertão

(de dentro para fora, e pré-didática).

No sertão a pedra não sabe lecionar,

e se lecionasse, não ensinaria nada;

lá não se aprende a pedra: lá a pedra,

uma pedra de nascença, entranha a alma.


João Cabral de Melo Neto


quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

male gorillas [ruth stone]


At the doughnut shop

twenty-three silverbacks

are lined up at the bar,

sitting on the stools.

It's morning coffee and trash day.

The waitress has a heavy feeling face,

considerate with carmine lipstick.

She doesn't brown my fries.

I have to stand at the counter

and insist on my order.

I take my cup of coffee to a small

inoffensive table along the wall.

At the counter the male chorus line

is lined up tight.

I look at their almost identical butts;

their buddy hunched shoulders,

the curve of their ancient spines.

They are methodically browsing

in their own territory.

This data goes into that vast

confused library, the female mind.

Ruth Stone


quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

two monkeys of brueghel [wislawa szymborska]


I keep dreaming of my graduation exam:
in a window sit two chained monkeys,
beyond the window floats the sky,
and the sea splashes.

I am taking an exam on the history of mankind:
I stammer and flounder.

One monkey, eyes fixed upon me, listens ironically,
the other seems to be dozing –
and when silence follows a question,
he prompts me
with a soft jingling of the chain.
Wislawa Szymborska
[ ? ]