Páginas

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024

sazuke


nas fotos de masahisa fukase

me mirando vi

corvos

 

borboletas

gelo

no estômago

 

levei o prato à pia

que me lembrou

de ter que

enfiar

uma mensagem

semiopcional

para alguém que

me enfiou

uma mensagem

semiopcional

 

raivadeu

desse nada tudo do todo

assim

 

na série de fotos

algumas são intituladas

‘da solidão dos corvos’

 

depois

masahisa fukase informou

que mesmo ele era corvo

 

um tombo

de uma escada íngreme

em um bar

em shinjuku

masahisa fukase em seu leito final

 

algumas fotografias de fukase

são seu gato

sazuke

 

só um gato

um gato

 

sem solidão

prato pia mensagem

opção

andrejcaetano

Masahisa Fukase



sábado, 25 de novembro de 2023

Gerúndio moribundo [psicografia]


fumou 32 cigarros em 16 minutos

viu ‘olha pra mim, mukai-kun’

ama esse amor de olhares

colocou os nomes dos fotógrafos das 32 fotografias novas na galeria

ouviu 32 minutos de jazz triste

16 minutos na proa sentindo o vento a boreste do horizonte

chorou um pouquinho

pensou em fazer algo mais vago mas mais vago que algo não haveria

assistiu ‘in love and deep sea’

achou que ia chorar mais um pouco

despublicou ‘julie through the glass’ do meu blog

trabalhou 3 horas 32 minutos e 16 segundos ao todo

sem fazer nenhuma lista

sem fazer nada

16 vezes teve uma sensação de fim

era mais uma sensação de final

disse

planejou ir à casa de dora buscar as tesouras

agradeceu a zeus o mar encapelado

assistiu ‘vai processar?’

achou lindo

adora toda vez que dizem arigatō gozaimasu com uma mesura grave

pensou em ligar para alguém mas ninguém quis alguém

foi ao outro continente comprar melancia

passou na casa da mãe que nunca teve

ouviu falar sobre uma filha

voltou ao alto mar

lavou as coisas na pia limpou a mesa o computador

alongou

ia meditar

desistiu

nunca soube de quê

fumou 32 cigarros em 16 minutos

foi sábado foi domingo

muito embora

nunca foi

era da segunda-feira a madrugada

andrejcaetano
[ ? (@atherdesk)]


segunda-feira, 6 de novembro de 2023

da perambulação japonesa II

 

homem sendo homem

horda

nada há contestar

 

mulher e não-mulher

minerva é atena

tridente ou colher

 

a água do café borbulhando

pensamento evapora

há outros temas para pintar

 

a pata a elefanta levanta

nuvens escuras em seus olhos

tromba d’água

andrejcaetano

Masao Yamamoto

quarta-feira, 1 de novembro de 2023

monólogos-dois


‘sabe o que sempre me intrigou?’

‘o quê?’

‘o quero-mas’

‘você quer dizer quero mais?’

‘não, quero-mAASS mesmo, o quero-mais apita’

‘ahn?!’

‘é que tem pássaro que grita, tem pássaro que apita, tem pássaro que assovia e tem pássaro que canta’

‘são pássaros, então?’

‘são, da família do quero-quero’

‘o quero-mais apita; e o quero-mas?’

‘isso é que é estranho, ele canta’

‘e o quero-quero?’

‘grita’

‘grita?, como assim?’

‘como uma ave de rapina’

‘e tem algum que assovia?’

‘tem’

‘qual?’

‘o querubim, mas está extinto’

‘triste’

‘é’

‘...como canta o quero-mas?’

‘como uma sheherazade-rapper’

‘sheherazade-rapper...’

‘você vai ouvindo aquilo e o bicho vai esticando o fio e você prestando atenção para não perder a meada’

‘o pio da...’

‘o interessante é que no meio daquela cantoria toda de repente ele para’

‘emudece...?’

‘e você fica achando que o bicho estava falando mesmo’

‘o quê?’

‘não o que, com quem’

‘com quem?’

‘com você, claro, e você fica lá esperando’

‘...’

‘e quando você está para desistir ou no segundo em que você desiste ele recomeça’

‘desistir, recomeçar...’

‘é um jogo’

‘qual jogo?’

‘pique-esconde’

‘e como acaba?’

‘não acaba’

andrejcaetano

Yohji Yamamoto


sábado, 21 de outubro de 2023

a coruja [itō harumi (senryū seriado)]


Uma lua [v]indo

A coruja cega

Reflete

 

--------------

 

Oráculos servem o quê?

Semblante

A coruja muda

 

--------------

 

A coruja surda

Falas grava

Papagaia

 

---------------

 

A coruja troncha

Canta 

E dança

Toda manhã

Masao Yamamoto



sexta-feira, 13 de outubro de 2023

mitológicas V


hera e zeus discutiam:

quem goza menos?

 

‘eus!’

‘como podes saber?’

 

‘tragam tirésias’ [o homem-mulher]

‘das 10 partes 1 é do homem’

 

‘idiota! a ignorância é contrapeso’

 tirésias-cego


 andrejcaetano

[Francesca Woodman]


sexta-feira, 11 de agosto de 2023

da perambulação japonesa

 

um-lugar

ouvia-se o mar [do japão]

 

o olhar de alguém mergulhou nos meus olhos

pelas pupilas

 

no fundo ótico

repousou

 

dezenas de segundos cintilantes disseram

‘ie ni kaerimasu’

 

ventava

ouvíamos o rilhar do bambuzal

 

dobrei-me

mesura sem mil palavras

 

retornei ao seu olhar

 

uma lágrima única lhe disse

‘dōmo arigatōgozaimasu’

andrejcaetano

Daidō Moryiama



terça-feira, 4 de julho de 2023

monólogos-um

 

‘sabe do que qui eu sinto falta?’

‘do quê?’

‘de gostar de alguém’

‘como assim?’

‘assim, você gosta de alguém e alguém gosta de ti quase igual’

‘e...?’

‘e você fica longe por algum motivo e sente saudade-amor’

‘saudade-amor...?’

‘não é um sentimento, é uma sensação sem palavra’

‘mas você chamou de saudade-amor...’

‘só que não é saudade nem amor, saudade-amor é outra coisa’

‘confuso isso...’

‘nada, só não tem palavra que chegue nela’

‘a não ser a que você usou...’

‘acabei de inventar’

‘e o que é isso?’

‘de um cheiro de uma música a pessoa chega’

‘a lembrança dela?’

‘não, a coisa-falta’

‘e...?’

‘você se alegra porque ela está ali em você’

‘uma falta que não falta?’

‘uma falta que preenche’

‘mas você não vai mais ver...’

‘vou, claro, é temporário, viagem, vindima’

‘vindima...?’

‘...me veio...’

‘e temporário...?’

‘se não fôssemos nos ver novamente seria dor’

‘seria saudade-dor?’

‘só saudade, já é uma dor’

‘mas você tem saudade...’

‘de uma sensação’

‘da saudade-amor...’

‘do guizo dela’

andrejcaetano

[Antoine Roger]


terça-feira, 18 de abril de 2023

sempre nunca

 

usus capio

posse tomar do que sempre foi eu

é preciso

se o que sempre foi nunca foi nem será


não essas imagens todas na memória

esse negócio de eu

esse trem do sempre-fui

esses [des]troços de coração

[quem cortejará aquele o-quê-quando?

uma prece

talvez

pela partida eterna

o que é normal ao final

marcas deléveis

da linha curva do tempo]


não

não esse verbo ser

mas o não-ser do verbo ir sempre a nascer


por que as pessoas são tão curiosas sobre arrependimentos?

arrependimento é conjunção subordinativa condicional

dura alguns instantes

deita-se

e se esquece naquela posição

[nunca o que aconteceu foi de outro jeito

 sempre será como aconteceu sem ele]

perguntem aos causídicos! usucapião não se lhe aplica

[deixem portugal em paz!

 essa crueldade toda sempre foi-será nacional]


a mim

me desinteressa o que está para ser

interessa-me a ignorância do que está por vir

não vindo

o sorriso em um rosto não visto

o porvir após o final da partida


a mim interessa

o desejo do sujeito do desejo


andrejcaetano

[ ? ]


sexta-feira, 24 de fevereiro de 2023

tanto vale quanto

 

tanta coisa pra não fazer tanta preguiça funcional

fiz foi lista middle-class

super smart tv suicida

vazamento

pendurar o quadro

terminar relatório

deitar na rede

 

tanta coisa para não tocar na questão mal posta

fiz foi diagnóstico subjetivo

besteira é dizer o que não se sustenta

o dizer não quer dizer nada

o dito sim tem consequência

encontros são contingentes

hoje eu saberia apostar

 

tanto mar tão longe pá tanta légua

fiz foi fluxograma transverso

a ralação sexual não resiste à relação

a gente amar não tem a ver com sexo

amor é besta recíproco brincalhão

faz-signo   troca-discurso

tesoura-pedra-papel-......-........-..........

 

tanta coisa fresta trinca tanto vão

fiz foi confusão translúcida

se hoje já tinha sido

se ontem foi um dia há muito tempo

se a mente come o estômago

o que é uma bicota na ponta do nariz?

quanto vale um emojí?

andrejcaetano

Rinko Kawauchi



quarta-feira, 7 de dezembro de 2022

o Outro [carlos drummond de andrade]

 

Como decifrar pictogramas de há dez mil anos

se nem sei decifrar

minha escrita interior?

 

Interrogo signos dúbios

e suas variações caleidoscópicas

a cada segundo de observação.

 

A verdade essencial

é o desconhecido que me habita

e a cada amanhecer me dá um soco.

 

Por ele sou também observado

com ironia, desprezo, incompreensão.

E assim vivemos, se ao confronto se chama viver,

unidos, impossibilitados de desligamento,

acomodados, adversos,

roídos de infernal curiosidade.

Trivela


sábado, 19 de novembro de 2022

noite escura incidental

Lorenzo Castore
 








quando voltava ia para lugar nenhum

recostado no breu de um cigarro aleatório

vi o revólver no nariz

a cicatriz na montanha escura da cidade

 

ereto

tremendo

explodi o pode-ser da cachaça das chances

 

foi assim o nada descido frio em meu pescoço

foi assim e ó era tarde demais

noite brusca

 

noite escura estrela-chuva noite escura nos meus olhos

noite escura nas mãos do agiota errante

noite bruta

 

em deitado no asfalto naquela estrada olhando o céu

eu mesmo percebi que ia sobreviver

eu mesmo vi quem mandava

            a chuva há de parar e parou

            o céu há de estrelar e estrelou

 

eu não procurava nada naquela paz muda

no céu estrelado

só olhava

não tinha gente


            alguém estava em pé do outro lado da estrada

            eu olhei

            disse nada

ele respondeu

            disse assim também a mesma coisa para mim

            nada

            só olhar

 

barulho luzes uma polícia rodoviária espantou a paz

[espavorida

 bateu asas]

 eu mesmo sabia quem não ia viver

 

um cão pastor atravessou a estrada

parou logo aqui

            rosnou três vezes

            para a noite escura nos meus olhos

andrejcaetano [1990]





domingo, 6 de novembro de 2022

sexta-feira, 7 de outubro de 2022

lugar de mais-ninguém

 

sem presságios sem anunciações

coincidindo reincidentemente

outra coisa sobrevirá

aqui

onde coisa alguma

[cheia das mesmas coisas de sempre]

agora há

 

uma hora dessas [ou duas]

[se a morte não há-vida ainda]

essa outra coisa

cobra-castiçal

iluminar-se-á neon

toda leonina


pescoço de girafa

se aprumará

 

se levantará da poltrona

toda venusiana

 

toda lunática

deixará as redes

largará as cadeias de balanços

e

crisálida naquela coisa-alguma

irá até a janela

e a abrirá convocando o vento

 

sem sair do lugar

voará

esvoaçará

pássaro-inseto da mesma pulsão

outra coisa saída

outra pulsação

andrejcaetano

Carolyn Drake


quarta-feira, 13 de julho de 2022

amares


a ironia na admiração

o timbre claro e calmo para objeções

suspiros

enfado às vezes

outras

resignação

 

precisos comentários mundanos sobre o absurdo da vida

[puro embevecimento]

a fala murmurante com as plantas

as expressões do olhar nas frases mínimas

no esboço de um sorriso alguma imensurável satisfação

a face rubra e explícita de desejo quando desejo era

 


 

adorava [dizia] me ouvir quando eu danava a falar

me ouvia observante

absorvia

até que eu ex-gostasse

 

então aplicava uma objeção irônica

no meio da minha testa

e esboçava um sorriso

 

amava [disse] me ver falando

‘você fala pelos braços’

e os tomava para ela

fazendo deles um abraço

enfunado de silêncio

andrejcaetano

[? (@_ko_mon)]