nada é
nada está
ou vem
com figura imagem
a piscina nada na 1ª pessoa do
singular
pluralista nada não
do teto cai um tatu
do dia a dia
um tudo-bem
nada além
nada
a quem
andrejcaetano
![]() |
| [@ertugcsayin] |
não há mais necessidade de poemia
há já um tempo o que se inscreve
é de fórum
adentro
onde não dá narciso secundário camuflado de ser vegetal
ficou esse escrever para ele ler depois
ficou mais tranquilo
ficou mais sentido
naquele ponto em que se zanza para lá e para cá
margem direita de córrego carregado de temporal
caído no pé da serra durante a noite
córrego que urra -[rio]---
naquele em que se erra para cima e para baixo
só
calmo
observando quando
observando se
a ponte submergida reemergirá
aponte o outro lado
a ponte a nado
isso não é uma questão porém
nem isso
imaginar se a ponte resistiu
nem se ponte existiu
andrejcaetano
| [@archillect] |
um poema virá
virá um poema
que dirá
o poema que virará
fala
um poema virá
virá um poema
que falará
o inefável
nominará
o inominável
na palavra que inexistirá
até o advento
do poema
que virá
um poema virá
virá um poema
que abrirá
no meio da pedra
um caminho
no meio da pedra há outro poema
que
desinstalado lá
estalará
o acolá
se cel, na horizontal ver
garotos
e garotas se atravessam sem olhos para oásis
só
miragem só miragem
que
as mulheres iniciem a conversa
mesmo
um coice
seda
toque
se
a gente deitasse torrente a gente não descansava
insones atormentados
se cel, na horizontal ver
não tem rio nem mar
para arear os fatos
palimpsesto
ilegível
jornal repleto de
notícias coloniais
a mulher me olha
paralá de minha concha sabendo o que eu não sei
o que eu não sei é
exclusividade das confluências
escleroso minha
morte
dou exemplos que
ela desconhece
é um dia assim já
ao meio de si
que carrego
toda briga minha
muito tempo depois
eu perdi
andrejcaetano
| [ ? ] |
Ele mora no alto de um minarete com uma vista ampla da cidade e da montanha ao fundo, a leste. A oeste a mesma coisa, ou quase. Não há vista para o sul. Há para o sudoeste. E é parcial. O que não dá mesmo para ver é o norte. Mas o norte é magneticamente claro, diz ele. Por mim, ele deveria descer do alto do minarete e caminhar ou pedalar ou tomar um ônibus ou sentar em algum lugar e olhar as pessoas que passam em todas as direções. Ele receia descer, porém. No solo ele teme que as direções não sejam tão claramente magnéticas e que o norte possa desnorteá-lo. Acho que por isso ele não sai, a não ser uma ou duas vezes por semana para fazer compras no supermercado da esquina. De vez em quando conversa comigo ao telefone. Pergunto se ele está bem e ele muda de assunto ou diz peremptoriamente “claro, clara e magneticamente”. Acho que ele espera que alguém, ou o norte, sei lá, suba no alto do minarete e conte para ele um conto ou cante uma canção que lhe sopre uma visão e lhe encarne uma centelha e o faça descer e passear pela cidade e lhe mostre como é o leste, o oeste, o sul e o norte mirados do chão. Tenho certeza, se isso fosse possível, que ele espera que seja uma mulher ou algo do sexo feminino. Ele desconfiaria de qualquer coisa do sexo masculino, ou melhor, ele não confia no senso de direção masculino. Faz um bom tempo desde a última vez em que estive no alto do minarete. De vez em quando tenho vontade de voltar. Conversar longamente. Acarinha-lo. Colocá-lo, guardá-lo dentro de mim, gozar dele e com ele. Já fomos isso. Mas eu não tenho a menor ideia do que o norte apronta e não tenho nenhum interesse em bússolas. Não são necessárias. Também não tenho muita paciência para a imobilidade. Uma aranha na tocaia, quer dizer, uma aranha imóvel na sua teia à espera. À espreita. Sem saber de quê. Na última vez em que estive lá passamos a tarde conversando, tomando chá, rindo. Eu me despedi dele com um beijo longo, lambido, lambuzado. Não sei se ele compreendeu que era uma despedida, que eu não subiria mais lá. Apenas pensei, sem pensar, que um beijo assim pudesse despertá-lo. O beijo seria uma maneira sensorial de fazê-lo perceber que a língua não tem direção e no mais das vezes não faz sentido. Lembro-me que ele ficou mudo olhando-me fixamente por alguns instantes como se tivesse tido uma revelação, de que o desejo o abandonara no alto daquele minarete. Ou de que ele largara o desejo no rés do chão. Sei lá. Tive ímpetos de colocar sua cabeça no meu colo e embalá-lo devagarinho, vagarosamente. Talvez eu tenha sentido pena dele, pena de todos os homens que são um pouco mulher e por isso se perdem entre uma coisa e outra, ambas sem importância. Isso me trouxe uma sensação de que poderia me deixar amá-lo outra vez. Ficar lá em cima ao seu lado, do lado oeste, olhando o sol sumindo na tarde e sumindo com ela. Mas não seria bom, poderia ser cruel, poderia ser cruelmente líquido e evaporar rapidamente com esse calor de abafo que tem esta cidade. Além do que não queria perder meu amigo do alto do minarete. Ao fim dos seus segundos de transe após o beijo ele disse “você ainda fala a língua de todos os sexos, salaam alaikum.” Eu sorri e me fui. Há dois dias ele me ligou para contar as novidades, quer dizer, nada, apenas pretexto para dizer o que ele precisava dizer para alguém que não ele mesmo: “estou cansado”. Eu perguntei do que ele estava cansado. Ele respondeu: “do magnetismo invisível e das bússolas inexistentes, de crer em direção e sentido...” Fiquei calada, falar o quê? Alguns segundos em silêncio, ambos, e ele continuou: “...estou mesmo é com saudade...”. Fiquei curiosa, do que ele estaria saudoso? “...da sua língua”, disse ele.
andrejcaetano
![]() |
| [? (@kulturtava)] |
não há quem
enovelado em novela repetida
[cedo ou tarde]
não penhore o espírito
pela mesma aposta já perdida
desde o último grande lance
[o inconsciente é o diabo]
Gerúndio não
Gerúndio vendeu seu próprio tempo
para adquirir temporadas atemporais
[a memória de tempos
pela memória de vidas]
vendeu seu corpo para si mesmo
sem opção de
recompra
[en el día en que una gitana en pozo del camino
le agasajó con dos palabras (‘mi
angelito’)]
vendeu amor pelo seu valor de face
sem oferendas
cláusulas de retribuição
solicitações de reembolso
revendeu reflexos de sua imagem sem liquidez
inadvertidamente radioativas
[escandem significantes átonos
empalidecem semblantes tônicos]
alheio
vendeu à sua reputação seus direitos
em negócio meta-libertário
razoavelmente pioneiro e perene
distribuiu a preço de algumas bananas
preciosos recursos imateriais
[inegociáveis no subsolo das
negociações
lhe abundam superficiais]
vende por apreço artístico
modestas parcelas de enlevação
a serem pagas no infinito
[na mesma moeda]
vem de si afeternura
[de porteiras abertas
e olhos fechados]
aos que lhe são claros
avoado
sem cacife
Gerúndio
à mesa dos jogos
desbanca seu próprio cacique
artista que mais se comprazia com o defeito-terapia
do que com a arte que a conduzia
escrevinhadora que escrevia
solilóquios sem si
sob a forma de quasi-poesia
amestradora de cavalos amestrados
e de um ou outro peão de boa
montaria
estudiosa diletante que se ardia
ouvindo
um ou outro sádico da antropologia
nos cursos que como ouvinte não
fazia
curiosa da astrologia que cria em
um só mapa
no qual o soturno saturno denega
qualquer sinastria
livreira sebosa que vivia à
sombra do enorme sombreiro
de outra livraria
namorada que sassaricava
namorados
e ciscava contingências para fins
de criptografia
um dia
espremida entre a parede da idade
e uma contingência tolamente solícita
sondou
‘amore, você me
sustentaria?’
ao que
evaporaram no ar o
ser e a fantasia
na mais perfeita arte
da prestidigitação
andrejcaetano
![]() |
| [ ? ] |
o que vai lá vai lá para falar
não pára
se adiante
silêncio
prossegue após pisar no onde-parou
por essa ou aquela fantasmagoria
daquela ou desse sujeito
quem-vai-lá vai lá para ser falha
que escapole a imagens
a qualquer simbologia
quem vai lá vai a despeito dos despeitos
vai na ponta da língua a travessia
se a outra ponta cala
a fala é rebaixada a blábláblá
o que melhor se enuncia em tupi
nhenhenhem
[hoje rebaixado ao primário mimimi]
na onomatopeica conversa com o
que silencia
o ser que vai lá
é o ser que fala
andrejcaetano
![]() |
| Lalo de Almeida |
![]() |
| Gavin Evans |
hi
long time
no send
I vanished
I know
what I don’t actually know
is whether I disappeared
myself
or myself
disappeared in me
never mind
not returning to you is perhaps a cowardice
of someone who indulges himself
in his disappearing
I just don’t know
yet
I often
think about sending you something
but I don’t
know what to say
or if I should
or why
shouldn’t I
it seems that every single thing
became distant of these days
one cannot smell and touch and feel
and seeing or listening or cuddling is afar
an enormous garden where nonsense sprouts
nonsense me
nonsense it all
I won’t equate the word all with life
it’s not as vast and vague
as the word life might imply
[life is or is not]
nonsense of being without purpose
a state of nonsensical laziness
working hard as any motionless machinery
purpose
doesn’t necessarily mean meaning
but it put
up a very precise type of joy
the one that
rises from the need
of moving
on towards whatever
so it happened that I gradually became
bewildered
incapable of reaching out
to tell you
the truth
I gradually became sick of humans
humans walking on the sidewalks
humans shopping around out of line
humans lying on tv news
humans speaking out of podcasts
humans speaking up at overated videos
humans acting out in series
humans preaching in lives
app-humans
like ghosts
I did mull
over and over again
on the
issue of me not being able to live
without illusions that allow foreseeing
further
illusions
which have always yielded in me
the joyful need to move
be that as
it may
in spite the fact that we’ve never met
it's due to
you this piece that I wrote
because I can't temporarily neither speak
nor write
in our native language
I wrote in this one and what I wrote
boils down to the following:
‘my dearest
far-off friend
miss you
really hope you’re alright
hope we can meet eventually
and take a walk alongside
the nonsense garden
p.s.: this is not a farewell'
andrejcaetano
nas infâncias tinha avô
o avô tinha fazenda
a fazenda tinha um ribeiro
o ribeiro tinha uma curva
na curva tinha um remanso
no remanso era a seva
[à quirela de milho]
no final da tarde tinha pescaria
[‘deixa eu te ver peixe’ – ‘não
deixo’]
lambari brincava
fazia de grande
fazia de pequeno
lambiscava-isca
e partia [ela na goela]
o avô olhava de viés o menino
a vara envergando
retesando
a linha ziguezagueando
‘é lambari’
tem que ter tempo de pescaria
para saber lambari
piau era mais vagarento
[não bobo tilápia de açude]
o avô observava de soslaio
a linha a vara a mão a face
o menino
dizia primeiro com os olhos
depois ‘seja peixe pescador’
que o menino entendia calado
‘não é lambari’
entre quem não via o peixe
e o peixe que não via quem
anzol
o passaredo silenciando
o som manso da corrente maina
luz do sol descendo pela peneira das árvores
faíscas na água do ribeiro
reflexos da noite chegando
um punhado de quirela ondeia o remanso
a voz do avô [‘vamos subir’]
a resposta menina fita-lhe os olhos
‘peixe avô pescador’
menino conversando com o silêncio ancião
![]() |
| Matt Bachdar |
qualquer coisa uma hora perde o pé
ou o pé se perde
onde pisa
no singular
do par não a par
[não há par]
onde um pé pisa
o outro observa
pré-ocupadamente
atado
pela perna sua
via tronco
à perna do outro pé
que pisa onde se perde o pé
brejo seco
solo de mármore
piso de barro
superfície lunar
perder o pé
metáfora deslizante em chão
escorregadio
fragmento semanticamente
inteligente
super além-do-mais
entre tanto
lacunar
inútil
[afinal]
no cume da oração
onde o gume cirurgião
rasga os riscos
aos finais
andrejcaetano
![]() |
| Divyakant Solanki |
tremeluz vergasta
não
passa disso
o que tu querias? a mulher
idolatrada?
a esfera celestial? algum
tipo de feitiço?
é carne, meu caro!, é a carne
sagrada
a atrair a pedir mais carne!, chouriço!:
'vem meu amor vem enlouquecida amada
esquecida de que existem
razões e isso
navegue tua língua do
alentejo até granada
e que exploda em tua boca o
armistício
e assim as coisas de bons
amigos consagradas
nos enxague os corpos depois
do meretrício
quando fartos e desunidos
estejamos nada
como o pássaro-sexo desde o seu início'
andrejcaetano
![]() |
| Yung Cheng Lin |
ó pobre Orides
houve de inscrever tão fundo
com o prego torto
que a tinha dependurada na parede
nada de versos orados
ornados
despejando o contido na despensa
ideais do-eu ou daquela Outra
nada de escreveres vazantes
vazamentos vagos
delineando a condição pegajosa
de um dia esquisito
mui distinto mas tal e qual
indo para o não-mais-sendo
do conjunto qualquer-outro
armazenado na despesa da memória
ó pobre Orides!
deambulando por nenhum lugar
em sua ânsia construtiva
a agulha espetada no olho da palavra
fazendo dela o que ela não quer
o que ela não quer
é o que ela faz
te pendura numa sequência
destrutiva
de paus-de-arara
uma arara
Orides
arara-uma
qual-qual quer outra
araru-ama
bebedouro
delas
andrejcaetano
![]() |
| [Vide Aperture] |