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sábado, 19 de novembro de 2022

noite escura incidental

Lorenzo Castore
 








quando voltava ia para lugar nenhum

recostado no breu de um cigarro aleatório

vi o revólver no nariz

a cicatriz na montanha escura da cidade

 

ereto

tremendo

explodi o pode-ser da cachaça das chances

 

foi assim o nada descido frio em meu pescoço

foi assim e ó era tarde demais

noite brusca

 

noite escura estrela-chuva noite escura nos meus olhos

noite escura nas mãos do agiota errante

noite bruta

 

em deitado no asfalto naquela estrada olhando o céu

eu mesmo percebi que ia sobreviver

eu mesmo vi quem mandava

            a chuva há de parar e parou

            o céu há de estrelar e estrelou

 

eu não procurava nada naquela paz muda

no céu estrelado

só olhava

não tinha gente


            alguém estava em pé do outro lado da estrada

            eu olhei

            disse nada

ele respondeu

            disse assim também a mesma coisa para mim

            nada

            só olhar

 

barulho luzes uma polícia rodoviária espantou a paz

[espavorida

 bateu asas]

 eu mesmo sabia quem não ia viver

 

um cão pastor atravessou a estrada

parou logo aqui

            rosnou três vezes

            para a noite escura nos meus olhos

andrejcaetano [1990]





quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

papo furado

se cel, na horizontal ver


garotos e garotas se atravessam sem olhos para oásis

só miragem só miragem

 

que as mulheres iniciem a conversa

mesmo um coice

 

seda

toque

 

se a gente deitasse torrente a gente não descansava

insones      atormentados

andrejcaetano
[ ? ]


terça-feira, 7 de dezembro de 2021

outono

 se cel, na horizontal ver


não tem rio nem mar

para arear os fatos

 

palimpsesto ilegível

jornal repleto de notícias coloniais

 

a mulher me olha paralá de minha concha sabendo o que eu não sei

o que eu não sei é exclusividade das confluências

 

escleroso minha morte

dou exemplos que ela desconhece

 

é um dia assim já ao meio de si

que carrego

 

toda briga minha

muito tempo depois eu perdi

andrejcaetano

[ ? ]

sábado, 2 de janeiro de 2021

sexo

 

tremeluz   vergasta   não passa disso

o que tu querias? a mulher idolatrada?

a esfera celestial? algum tipo de feitiço?

é carne, meu caro!, é a carne sagrada

a atrair a pedir mais carne!, chouriço!:

'vem meu amor   vem enlouquecida amada

esquecida de que existem razões e isso

navegue tua língua do alentejo até granada

e que exploda em tua boca o armistício

e assim as coisas de bons amigos consagradas

nos enxague os corpos depois do meretrício

quando fartos e desunidos estejamos nada

como o pássaro-sexo desde o seu início'

andrejcaetano

Yung Cheng Lin



segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

tudo que penso

 

me preguntan alguna cosa

eu

em vez de pensar

torço meu pescoço para trás

jogo meus olhos para o alto

e vejo-os todos lá

plainando

tudo que penso

que

penso

andrejcaetano

Mario Lasalandra


sábado, 23 de maio de 2020

lápis-lázuli


ela colocou os cotovelos sobre a mesa de vidro

mirou o chão por muito tempo

 

meus pés

suas lágrimas vagarosas

 

minha coragem parva

não posso mais lembrar sobre nomes

 

como foi que nos conhecemos

quando ressinto isso sinto só sua mão no meu cabelo


andrejcaetano

Koichi Ito
Koichi Ito

sexta-feira, 1 de maio de 2020

tinir

não tem ninguém na rua     nem carro nem adolescente nem assassino

olho bem os olhos dela       não quero beijos nem lutas


                                            [só quero ver um trem num túnel]

cruzo os braços em volta dos joelhos e colo o queixo sobre um

 

a gente olha um para a casa do outro

ela é bonita    parece um telegrama

 

três estrelas cadentes uma fitinha do bonfim

ela diz: “você é bonito     é    você é sim”

andrejcaetano
Nicholas Garlab



sexta-feira, 3 de abril de 2020

longo poema de natação


venho por meio deste ritmo eletrificado dizer ó quimera avança tu sozinha e deixa meu cabelo medusa crescer serpente com cloro e fumo que um esforço é tudo que se pode. as coisas. essa ameba. eu. como queira você mas o normal sempre me trouxe cavidades do tudo ou nada. este sempre foi o debate! maravilhas me dirão de cidades como se fossem algo sem povo. como se fossem gigantes. me dirão sobre mulheres como se elas fossem amor e sexo sem gênero a lhes impor. me dirão muito mais porque só o que salva é o coração. como se fosse apenas dizer para si no espelho: ó meu coração. quanta porta. venho por meio desta fechadura dizer que não tenho controle sobre o que quero. não quero nada. quero tudo. mora em meu banheiro um demônio de nome belial. dorme sossegado e não tem nada a sugerir para o meu mal ou para o mal que eu deva promover. ressona desinteressado. em minha sala vivem anjos que adoram pipoca e televisão. ó deus de djakarta! queime minha televisão! venho por meio deste computador referendar que quero morrer qualquer um e já. o passado dói gelo no meu estômago apenas porque esteve parede na minha mão e virou fotografia. o mesmo engano de pensar que belas palavras são a precisão de uma poesia. estou aqui neste prédio velho e barulhento para afirmar que da praia a visão do mar me acalma e que gosto do caminho sem gentes no início da noite e da chuva que me trespassa como se fosse ela a mão do deus e que sofro muito vendo gente humilhada e na igreja domingo quando vou sei que não interessa o medo porque agora naquela hora de qualquer morte amém e não faço nada mas não dou esmola. isso é tudo o que sou: um olhar vaidoso. um bicho que reza. apesar dessa sapiência ter chegado ao pulmão não consigo parar de mirar a piscina da cidade para ver como meus pares nadam e inverno longos verões de prostração até perceber que não sou peixe de piscina. paciência. venho por meio deste poema longo de natação dizer que a angústia de morar na beira da cidade não me avassala mais como se fosse um rei protetor a mão do deus e não a chuva que passa. que sou sozinho. que não quero nada. que o vazio é o recipiente. que a lagartixa está magra por que o inverno foi seco. que ganho pouco. que leio muito. que creio em paz. que confirmo minhas culpas em qualquer tribunal. venho por meio desta língua ancestral quebrar o ritmo de ser querendo tudo e afirmar que estou cansado demais para continuar achando que eu dirijo a minha nau. que d’agora por diante será como eu puder. um bicho do deus.
andrejcaetano

Liza Kanaeva Hunsicker

quarta-feira, 25 de março de 2020

Gerúndio [ergo sendo]

gerĕre, 'fazer, produzir, executar'


? (@amasya3535)






 

foi

violando regras e

auscultando donzelas e

jogando com os ditados e

modernizando noivados e

enganando os desenganados e

lembrando

‘ó que sonho estranho sonhei noite passada’

(dentro do coletivo viu o tempo

de hábito franciscano e cabeça raspada

enquanto ao seu lado

um romeno apressado lhe garantia

que era seu parente distante

via obscuro amanuense romano)

e

desesperando a próxima estação e

descontando seu parco dinheiro e

dispensando quantos anos já havia e

inalando olhares e

roubando fumaças e

ouvindo os sinos que arranham

os ouvidos na madrugada e

depois deles os galos

sofejando seus azedos solfejos

“tá na hora! já passou!”

tudo por assim dizer

em termos mais precisos

gerundiando

não chegando não passando

tudo sendo

gritou

“mãe!”

sua mãe preocupada acorreu na madrugada

“filho! é só mais um pesadelo!”

que ele lha explicou

“não mãe! é gerúndio!

se falássemos o tupi

eu dormia em paz”

e a mãe imaginando consolar

“filho, o tupi tem três tempos gerundiais”

 

pois

não prestando muita atenção

[na paisagem da janela

na própria sorte]

desconsiderando nacionalidades

destemendo gitanos

acordou zonzo e só

em um trem andaluz

indo

o Gerúndio de sempre

andrejcaetano 






domingo, 1 de dezembro de 2019

tango

if you're going to try, go all the way; otherwise, don't even start
Charles Bukowski


a mão dela em meu ombro
sua perna se me enrosca
serpente olha fita mira
admira o corço tolo
tão óbvia suzerana
sabe fácil a presa tonta
e então mais dois passos
debruça ela suas costas em meu braço
e guia meus ermos cegos e meus sapatos gastos
pelas entrelinhas dos meios dos caminhos
pelas meias-verdades das sagradas escrituras
pelos labirintos de priscos pergaminhos
e então com apenas um gesto-traço
absorve-me em sua infra-estrutura
andrejcaetano
Eric Kellerman

sexta-feira, 2 de junho de 2017

gêneros ii

a mulher olha o deserto e diz
‘léguas’

eu sou moléculas de homem
prazer tem prazo e alegria tem nome

andrejcaetano
Simon Procter

segunda-feira, 24 de abril de 2017

fado


foi a digressão de uma mulher dirigida a um homem cego que disse:

‘meu amigo, o sexo oposto tu és’

 

e o moço, encantado com tamanha objetividade, propôs:

‘mudemos os planos cartesianos com plantinhas no parapeito da sacada de nosso lar

 

luzes quando escurecer! brincadeiras quando o breu se der!’

que ela replicou mansinha: ‘olha, o fado é que só-fejará de longe o seu bafo de cotas’

 

meu deus!, e ele continua na janela olhando de través

vesgo   pangaré

andrejcaetano
Francisco Mata

segunda-feira, 6 de março de 2017

a mancha da tarde

sentei-me para ordenar as tarefas da tarde
e a primeira que me veio foi exatamente esta:
escrever um poema.
qualquer um!

manuel de barros adejou pelos desvãos da minha lógica
com seus sapos e pedaços de pau
e as personalidades dos rios e seus barrancos.
mas de nada adiantou.

poesias mais acadêmicas também sobrevoaram minha ótica.
inquietei-lhes a atitude com alguns poemas
de wislawa szymborska.
outra hora.

logo ali
o futuro do pretérito do trânsito paulistano
engarrafava poesias concretas.
mas nem me passou a idea de bebê-las.

lembrei-me então que eu bebera joão cabral.
isso porém não alterava minha condição
de temporário residente desta nau.
e agora?

preciso um poema
que não diga nada demais.
apenas manche esta tarde de palavras
e imprima nela a falta que ela não faz
andrejcaetano

sexta-feira, 24 de junho de 2016

a chuva, o sol e o vento


Que venha o carnaval
E que se vá o carnaval
E as odisseias diárias
De um cidadão ordinário

Que venham a nudez e a necessidade
E que elas passem
E mais as estações do ano
E que passe pelo trem
A tal cidade de Lugano
E mãos ternas e carinhosas
E os desastres desumanos

Que venha a morte
Que a morte passe
Desarmada enfim a alma
Que venha e passe
Também o nada

andrejcaetano
@archillect

quinta-feira, 27 de março de 2014

argos


carimbo
o cigarro revoluteando

em si bemois circulares
duas músicas

barroco ensimesmático de um mirante envolvendo com oceanos os tais sertões
quase um urso

aço
o vapor branco de Argos tracejando os céus da intemporalidade

andrejcaetano
Mario de Biase

sexta-feira, 1 de março de 2013

erro crasso


eu   se tive vidas passadas
numa fui urso noutra sucuri

tocas sem discurso
nunca falei nem nada escrevi

mas nesta deito poemas às carradas
erro do tamanho d'um cetáceo não usar a pena giz

andrejcaetano
Shu Cheuk


quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Gerúndio e o tao do amor


I
desparafusem cada parafuso
soltem as amarras e refaçam as estruturas
separem o inseparável do difuso
e aliviem os pobres de suas agruras

livrem os loucos dos manicômios
parem todos os sinais vermelhos
muitas doses de ferormônio
e mil e três vivas! aos pentelhos

peguem nos bancos as suas dívidas
procurem alhures as suas divas
cubram os santos com tépidas mantas
e entoem à tarde os belos mantras

porque do amor ele pediu a infância
e Ele lhe deu isso mesmo quem lhe dera
envolto em tanta circunstância
que seu estômago revolve e reverbera


II
pensem mal sobre o certo e o errado
e cassem as bruxas dos microondas
lancem pioneiras espaciais sondas
e soprem com carinho o arranhado

porque a Ele ele pediu e Ele o integrou a Ela
            a verdade em caverna de marfim
            toda a luz de um toco de vela
porque o que ele pediu Ele lhe deu assim:

  
III
teu foguete e teu canivete
teu cronômetro e teu nó górdio
tua dúvida mais inconteste
derrota e primeiro lugar no pódio

tua exatidão e tua crueldade
tua fagulha e teu rebotalho
toda a possível felicidade
vida inteira pedaço de retalho

está tudo aí: confusão e certeza
ferida e sã cicatriz
monotônica lentidão e presteza
a eternidade e o triz
andrejcaetano
Ferrucio Ferrone

quinta-feira, 21 de junho de 2012

o meu peito nesta noite

nesta noite o meu peito
está cheio de dificuldades que
eu próprio não entendo

estou a tatear a crueldade 
dos cotidianos esfaimados
eu mesmo
não podendo carros ou baladas
e o vazio
é que isso é um nem-queria

me corrói o esforço humilhado
dos biscateiros batendo seus sinos
rua acima por todos os dias   algodão
doce   rosas   bijú   jornal velho   esses olhos
enrijecidos sol ou chuva todo o
sempre miseravelmente rua abaixo

eu próprio um elemento gasoso
sem voz   a se desencantar com o que
seria meu   com a boçalidade dos
meus pares   o lixo nas calçadas
óculos escuros   videomakers atrás
de imagens avessas   polígonos
arestas   clichês   churrascos

eu mesmo   apesar do oásis
estou onde não estou
a chorar os viadutos habitacionais
o tempo perdido e irrecuperável
o futuro sem filhos
a dor magrela e banguela
onde dorme
sem amor algum em seus abismos
o espírito desta noite

andrejcaetano [1992]
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