quarta-feira, 15 de julho de 2020

a nação em sinastria


ele fritava um ovo

olhando para a frigideira

ela disse:

 

‘você acha tudo fácil

 mas duro mesmo

 é corroer solene’

 

a chuva dedilhava a janela

lavava carros

levava erros

andrejcaetano

Chema Madoz

sexta-feira, 3 de julho de 2020

gêneros i

Agora

teu sexo

sugando meus verbos

 

 Depois

 minha caneta

 rabiscando teus espíritos

 

andrejcaetano

Njideka Akunyili Crosb


sábado, 23 de maio de 2020

lápis-lázuli


ela colocou os cotovelos sobre a mesa de vidro

mirou o chão por muito tempo

 

meus pés

suas lágrimas vagarosas

 

minha coragem parva

não posso mais lembrar sobre nomes

 

como foi que nos conhecemos

quando ressinto isso sinto só sua mão no meu cabelo


andrejcaetano

Koichi Ito
Koichi Ito

sexta-feira, 1 de maio de 2020

tinir

não tem ninguém na rua     nem carro nem adolescente nem assassino
olho bem os olhos dela       não quero beijos nem lutas

                                            [só quero ver um trem num túnel]
cruzo os braços em volta dos joelhos e colo o queixo sobre um

a gente olha um para a casa do outro
ela é bonita    parece um telegrama

três estrelas cadentes uma fitinha do bonfim
ela diz: “você é bonito     é   você é sim”
andrejcaetano
Nicholas Garlab



domingo, 12 de abril de 2020

tique-taque


Barulho –
            uma poesia
decodificava
o nexo do tempo
                       E o tempo, desconexo,
                                               às vezes solfejava
                                   às vezes gralhava

Poesia –
            um murmúrio
o influxo do tempo
informava
                                   E o tempo, no afluxo,
                                               às vezes gotejava
                                               às vezes jorrava

Entre a lacuna e a praia o tempo brincava
Brincadeira com começo meio e trava
andrejcaetano


quinta-feira, 9 de abril de 2020

relações perversas - II

fuma angústia
          o gozo é o barato do real

vibra dor
          a obra prima pela imagem

imagina ferida
           quanto custou? o valor é simbólico

andrejcaetano

@archillect

segunda-feira, 6 de abril de 2020

relação sexual

“as imagens do sonho só devem ser consideradas pelo seu valor significante”
JM É Lá

‘vou foder as palavras’ foi o primeiro pensamento do sábado ao ver o sol fritar a cortina. o segundo veio lépido: água! o terceiro se perdeu nos ermos do quarto já quente e esquelético quando o quarto já se ia pelo universo sideral distanciando-se das vozes dos vizinhos às nove da manhã [compras? clubes? churrascos?]. fiquei um homem. coisa engraçada. já um quinto largado de toda ordenação sem qualquer cronologia sextante ou outro instrumento de desiludir as óticas. levantei-me homem ficado.
andrejcaetano
Nathan Saillet



sexta-feira, 3 de abril de 2020

longo poema de natação


venho por meio deste ritmo eletrificado dizer ó quimera avança tu sozinha e deixa meu cabelo medusa crescer serpente com cloro e fumo que um esforço é tudo que se pode. as coisas. essa ameba. eu. como queira você mas o normal sempre me trouxe cavidades do tudo ou nada. esse sempre foi o debate! maravilhas me dirão de cidades como se fossem algo sem povo. como se fossem gigantes. me dirão sobre mulheres como se elas fossem amor e sexo sem gênero a lhes impor [às vezes geléia de carne por onde eu escorro rego sem ética]. me dirão muito mais porque só o que salva é o coração. como se fosse apenas dizer para si no espelho: ó meu coração. quanta porta. venho por meio desta fechadura dizer que não tenho controle sobre o que quero. não quero nada. quero tudo. mora em meu banheiro um demônio de nome belial. dorme sossegado e não tem nada a sugerir para o meu mal ou para o mal que eu deva promover. ressona desinteressado. em minha sala vivem anjos que adoram pipoca e televisão. ó deus de djakarta! queime minha televisão! venho por meio deste computador referendar que quero morrer qualquer um e já. o passado dói gelo no meu estômago apenas porque esteve parede na minha mão e virou fotografia. o mesmo engano de pensar que belas palavras são a precisão de uma poesia. estou aqui neste prédio velho e barulhento para afirmar que da praia a visão do mar me acalma e que gosto do caminho sem gentes no início da noite e da chuva que me trespassa como se fosse ela a mão do deus e que sofro muito vendo gente humilhada e na igreja domingo à noite quando vou sei que não interessa o medo porque agora naquela hora de qualquer morte amém e que não faço nada mas não dou esmola. isso é tudo o que sou: um olhar vaidoso. um bicho que reza. apesar dessa sapiência ter chegado ao pulmão não consigo parar de mirar a piscina da cidade para ver como meus pares nadam e inverno longos verões de prostração até perceber que não sou peixe de piscina. paciência. venho por meio deste poema longo de natação dizer que a angústia de morar na beira da cidade não me avassala mais como se fosse um rei protetor a mão do deus e não a chuva que passa. que sou sozinho. que não quero nada. que o vazio é o recipiente. que a lagartixa está magra por que o inverno foi seco. que ganho pouco. que leio muito. que creio em paz. que confirmo minhas culpas em qualquer tribunal. venho por meio desta língua ancestral quebrar o ritmo de ser querendo tudo e afirmar que estou cansado demais para continuar achando que eu dirijo a minha nau. que d’agora por diante será como eu puder. um bicho do deus.
andrejcaetano

Liza Kanaeva Hunsicker

quinta-feira, 2 de abril de 2020

fronteiriças

"I am, by calling, a dealer in words; and words are, of course, the most powerful drug used by mankind"
Rudyard Kipling


certamente que Benjamin morreu para cruzar uma fronteira e Bruno Schultz morreu por não ter cruzado fronteiras e Sandor Marai empacou para nunca mais em uma fronteira e Faulkner não tinha fronteiras e Pound erigiu uma fronteira vertical e inútil e Beckett ficou murmurando meia vida inteira “há uma fronteira no meio do caminho” e Gordimer perguntou a Coetzee “não consegues ver a fronteira?” e Whitman não reconhecia fronteiras e Gabriel Garcia Márquez fez suco de fronteira e deu para as tristes putas beberem e Naipaul transfronteirizou e certamente fronteira é uma abstração que o erutidismo acadêmico desconhece – o apego pegajoso delirante tosco grosso brusco nauseabundo inebriante das palavras em quem vive delas e nelas como no conto de Kafka em que o que importa é o macaco em cima do realejo

andrejcaetano
Renan Ozturk






sábado, 28 de março de 2020

alcácer do sal


não me lembro bem qual era o objetivo
mas fui
como em qualquer outro dia

depois voltei
como todo mundo que ia
e no caminho de volta topei

com alguma coisa que já
não me lembro mais
não sei – como é que eu me lembraria?

depois   como de praxe   saí de novo
na volta deixei as compras ao lado da pia
fui ver televisão

onde tudo desaparecia
meu sobrenome
minha covardia

para onde eu me dirigia
o fato e o concreto
o motivo (que um eu sei que havia)

perplexo fui ao banheiro
e por alguma fisiologia
dei de frente com o grande espelho

mirei a mouraria
quanto tempo observei absorto
algo que nunca via

chamaram
meu nome ecoou osso branco no descampado
aleluia
andrejcaetano