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quarta-feira, 17 de junho de 2026

Gerúndio sobre ela [se ao menos]

[?]












“prezado,

é sobre ela. escrever sobre ela é diferente de escrever sobre ela para outra pessoa. o que é contar. preciso contar. começo no meio  não tenho como, nunca quis, evitar. tu sabes.

 

ela falava uma língua de outro lado do mundo.

eu escutava.

ela falava me olhando nos olhos. mal piscava.

falava entremeando ‘né?!’ simultâneos a uma ligeira inclinação da cabeça que nas minhas línguas seria mais lenta e significaria ‘sim’ ou talvez ‘concordo’ mas na dela era uma marcação abrupta uma cutucada delicada – ‘anata ga sh[i]tte iru!’.

duas vezes – ou três – ela fez uma pausa, olhou à frente para além do balcão, deu uma baforada no cigarro e retornou ressintonizando seus olhos com os meus.

eu via.

mais não muito e ela parou. deu um suspiro algodão doce, esclareceu na língua dela o que acabara de falar para fazer dito da fala e perguntou:

‘Wakarimas[u]ká?’

‘Wakarimastá!’, respondi – que isso eu sabia.

não. eu sabia mais. via como ela falava com o tronco os braços pescoço-e-cabeça - o que ela falava com o corpo – o todo do que ela falava.

ela sabia que eu sabia nada da língua dela – falada ou escrita. talvez por isso ela falasse sem embaraço aquela coisa tão dela ela a civilização dela.

talvez por saber que eu enxergava e entendia o corpo dela dizendo o dizer dela ela falasse comigo olhando bem nos meus olhos que ela via que neles estavam meus ouvidos – e minha boca entrecerrada.

então ela engatou quatros frases em um crescendo – de veludo a seda – para dizer uma coisa. uma’penas. depois silêncio. 

uma lágrima desceu de seu olhar esquerdo e traçou uma faixa brilhante do zigoma ao canto do queixo – marcou a aterradora perfeição daquela convexidade.

linda.

quando a luz da lágrima única se apagou ela agarrou minha mão direita sobre o balcão e a puxou repetindo aflita’legre: ‘yukō, yukō!’. eu falei a outra coisa que eu sabia na língua dela: ‘rái!’.

e fui.

fomos.

ela na frente agarrada à minha mão puxando meu braço movendo meu corpo.

na beira do rio nos sentamos no banco de madeira ao lado da ponte mais para baixo um pouco.

ela prosseguiu. falava para mim e para o rio o qual ela mirava com uma devoção xintoísta enquanto eu mumificado admirava o contorno do perfil direito do rosto dela e pensava apaixonadamente

‘subarashī...’

não sei quantos instantes de contemplação se passaram mas veio um e depois dele estava só a falação do rio.

ela tirou seus olhos dele, virou-se para mim e me fitou como se fosse entrar por um dos meus – só ainda não decidira qual.

talvez por isso ela encostou seus lábios nos meus entreabertos e sua língua saiu lá do mundo dela para tatear a minha e duas línguas tão estrangeiras uma para a outra se entenderam e estenderam o silêncio vivo durante pi rotações do planeta.

uma meia vida inteira.

quando a água nas pedras parou de taramelar e a distância natural entre duas línguas estrangeiras se refez eu soube a palavra que ninguém queria. que ela diria. que ela não dizia. que ninguém disse.

quatro décadas passaram pelas beiras daquele rio tagarela até eu dizer a pergunta:

‘saiōnara?’

ela rasgou o ar girando a cabeça de um ombro ao outro, três vezes, se aconchegou e ciciou bicho de seda:

‘tarareba...’

 

foi isso; sendo, isto é, no mesmo lugar – la prima volta, fratello.

saúde!

Gerúndio”


terça-feira, 19 de maio de 2026

adiamento [Fernando Pessoa]

 

[ ? (@BlinkArmada)]

Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...

Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,

E assim será possível; mas hoje não...

Não, hoje nada; hoje não posso.

A persistência confusa da minha subjetividade objetiva,

O sono da minha vida real, intercalado,

O cansaço antecipado e infinito,

Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico...

Esta espécie de alma...

Só depois de amanhã...

Hoje quero preparar-me,

Quero preparar-me para pensar amanhã no dia seguinte...

Ele é que é decisivo.

Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não tenho planos...

Amanhã é o dia dos planos.

Amanhã sentar-me-ei à secretaria para conquistar o mundo;

Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...

Tenho vontade de chorar,

Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...

 

Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.

Só depois de amanhã...

Quando era criança o circo de domingo divertia-se toda semana.

Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância...

Depois de amanhã serei outro,

A minha vida triunfar-se-á,

Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático

Serão convocadas por um edital...

Mas por um edital de amanhã...

Hoje quero dormir, redigirei amanhã...

Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância?

Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,

Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo...

Antes, não...

Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.

Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.

Só depois de amanhã...

Tenho sono como o frio de um cão vadio.

Tenho muito sono.

Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...

Sim, talvez só depois de amanhã...

 

O porvir...

Sim, o porvir...


terça-feira, 28 de abril de 2026

kanazawa

@andrejcaetano





 











o entardecendo

o anoitecendo

entreteciam-se


desfazendo-se

teciam

uma noite de nipônico outono

descia

a longa rua plana

suave de curvas

 

à direita

a água no canal gorgolejava

suavizante som de calma

 

à esquerda

apenas casas

apenas casas

  

não me lembro para onde me dirigia

se eu me dirigia

ouvia e mirava tão semente

que espaço não tinha na despensa

para pensamento

 

escureceu

 

um pequeno santuário apareceu

um pequeno santuário com seu grande sino

budhá xintô

 

atravessei a rua para a prece de praxe

e de gosto

sagrada

 

o pequeno santuário estava fechado

um portão de madeira

se engatava

a uma mureta acobreada

onde afixavam folhas de papel

de avisos e poemas

 

havia uma

nela

sete versos linhas verticais

 

nas duas primeiras estava inscrito

‘se vais sozinho e estás em boa companhia

 então devem ser considerados dois’

 

sorri

do sorrir perene

 

prossegui

indo

a mente

à mais comum e subestimada forma

de um povo inteiro se despedir

‘vai com Deus’

 um povo inteiro

insciente budista das despedidas

em mim sorria

bondosa

mente

andrejcaetano







what do you care?


‘now

 at this precise juncture

 what do you want

 really?’

 

so they asked

so a long thought unwound

...

to read no answer

write no question

be wrong bereft of

to study the japanese syntax

of the none to no one

compile absurd to-do lists full of if

make them talk

listen inattentively

to buy a bunch of fool stuff

a mountain

wonder about wandering around it

wander around

to sleep 12 hours straight at least 1 night a week

recollect the night's last dream

behold the past tense

forgo the wrecked memory

to look yonder the beach

gaze at

appreciate

our everyday trash scattered out over the sidewalks

see the beach from the sea

to smoke the last cigarette

to desire in lull

to swim along

amidst the sirens’

lullabies

andrejcaetano

[ ? (@archillect)]



domingo, 12 de abril de 2026

a paz dos persas

[ ? (archillect)]


ladeiras

encostas

ribanceiras

até no em baixo

do lá embaixo

o tempo

chega


nos dois sentidos

sem precisar coordenações

 

gravidades sem finalidades

fundam

o fim

 

findam

 

não

 

não

não é uma palavra

jamais deveria iniciar

frases incríveis

elas

plural de uma só singularizada no algarismo nada

são a única que houve

e depois

havia

 

agora

no futuro daquilo

a questão da memória:

ela houvera ou haveria?

 

quiçá

em uma canção curta

e bela

uma outra ela

haverá

de apreciar

o fiapo que seja

uma canção fina

mina

no messages attached

a não ser

que os gregos derrotaram os persas

foi logo no início

- para império temerário

  contingências adversas -

a não ser

que é possível endereçar uma missiva

ao não ser

[quem se foi com ‘até um dia desses’

 quem veio e nem isso disse

 quem partiu de vez]

 

maratona longe da barbatana espartana

a absurda batalha de plateias conversas

partiram de vez

a paz dos persas

andrejcaetano









domingo, 8 de fevereiro de 2026

Gerúndio adolesce

Ikkō Narahara

Gerúndio adolesce só no mundo

com maconha reativan

& pinga com mel

com itamar e seu amigo arrigo

lá no beleléu  

com grafiti  caretice

& folhas vindas de são paulo

com paulinha que sabe o que quer

& nada quer

com cervejas  bolívias

& inúteis cursos de inglês

com uma americana do arizona

& saudade doentia de nada

com confins viagens

& shashins

com marcelosrubenspaivas

  2 anos depois

com polícias políticas

& a fazenda lá na alta mogiana

com pobreza  espíritos da pobreza

um beijo sem sal & 1/2 abraço

com david bowie graciliano ramos

& poesias fora dos compassos

sem si

sem mi

andrejcaetano [1984]



sábado, 3 de janeiro de 2026

pensando mal

 

'mal pensando

eu já estava ultra-passando

pesando fardos

pescando anzóis

já nem pensando estava

nem pesando

muito menos pescando

só passando

a roupa emagrecida dos intermináveis cerimoniais de ontem

ferro

em avanços e recuos precisos

imprensando

imprensado

não abrindo mais

a correspondência assimétrica

entre o ganha-pão e a figuração

a necessidade e o suspeito

tácitos pactos e automutilação

que se isto e aquilo papéis medíocres

que se não mais razão nem em fabulosos arrazoados

não seria eu quem deixaria de fazer as contas

para

no momento mais equivocado

exigi-las

desfazerem o faz-de-contas'

 

'então

por que a surpresa com a faca

afinal

se na autonomia cerimonial do seppuku

já tu te rasgaras as próprias tripas

e livraras a persona grata da non-grata?

se no voo solitário e kamikaze

o que importa é não ficar vendido?

se no fim de contas

 dividendos sempre 

a vida te resgata dos gerúndios

pelas mãos dos teus mortos

pelo traço livre

dos teus caminhos tortos?'

andrejcaetano

[ ? (@carpediem333)]