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“prezado,
é sobre ela. escrever sobre ela é diferente de escrever sobre ela para outra pessoa. o que é contar. preciso contar. começo no meio – não tenho como, nunca quis, evitar. tu sabes.
ela falava uma língua de outro lado do mundo.
eu escutava.
ela falava me olhando nos olhos. mal piscava.
falava entremeando ‘né?!’ simultâneos a uma ligeira inclinação da
cabeça que nas minhas línguas seria mais lenta e significaria ‘sim’ ou talvez
‘concordo’ mas na dela era uma marcação abrupta uma
cutucada delicada – ‘anata ga sh[i]tte iru!’.
duas vezes – ou três – ela fez uma pausa, olhou à
frente para além do balcão, deu uma baforada no cigarro e retornou
ressintonizando seus olhos com os meus.
eu via.
mais não muito e ela parou. deu um suspiro algodão doce, esclareceu na língua dela o que acabara de falar para fazer dito da fala e perguntou:
‘Wakarimas[u]ká?’
‘Wakarimastá!’, respondi – que isso eu sabia.
não. eu sabia mais. via como ela falava com o tronco os braços
pescoço-e-cabeça - o que ela falava com o corpo – o todo do que ela falava.
ela sabia que eu sabia nada da língua dela – falada ou escrita. talvez por
isso ela falasse sem embaraço aquela coisa tão dela ela a civilização dela.
talvez por saber que eu enxergava e entendia o corpo dela dizendo o dizer dela ela falasse comigo olhando bem nos meus olhos que ela via que neles estavam meus ouvidos – e minha boca entrecerrada.
então ela engatou quatros frases em um crescendo – de veludo a seda – para dizer uma coisa. uma’penas. depois silêncio.
uma lágrima desceu de seu olhar esquerdo e traçou uma faixa brilhante do zigoma ao canto do queixo – marcou a aterradora perfeição daquela convexidade.
linda.
quando a luz da lágrima única se apagou ela agarrou minha mão
direita sobre o balcão e a puxou repetindo aflita’legre: ‘yukō, yukō!’. eu falei a outra coisa que eu sabia na língua dela: ‘rái!’.
e fui.
fomos.
ela na frente agarrada à minha mão puxando meu braço movendo meu corpo.
na beira do rio nos sentamos no banco de madeira ao lado da ponte mais para baixo um pouco.
ela prosseguiu. falava para mim e para o rio o qual ela
mirava com uma devoção xintoísta enquanto eu mumificado admirava o contorno do perfil direito do rosto dela e pensava apaixonadamente
‘subarashī...’
não sei quantos instantes de contemplação se passaram mas veio um e depois dele estava só a falação do rio.
ela tirou seus olhos dele, virou-se para mim e me fitou como se fosse entrar por um dos meus – só ainda não decidira qual.
talvez por isso ela encostou seus lábios nos meus entreabertos e sua
língua saiu lá do mundo dela para tatear a minha e duas línguas tão
estrangeiras uma para a outra se entenderam e estenderam o silêncio vivo
durante pi rotações do planeta.
uma meia vida inteira.
quando a água nas pedras parou de taramelar e a distância natural
entre duas línguas estrangeiras se refez eu soube a palavra que ninguém queria.
que ela diria. que ela não dizia. que ninguém disse.
quatro décadas passaram pelas beiras daquele rio tagarela até eu
dizer a pergunta:
‘saiōnara?’
ela rasgou o ar girando a cabeça de um ombro ao outro, três vezes,
se aconchegou e ciciou bicho de seda:
‘tarareba...’
foi isso; sendo, isto é, no mesmo lugar – la prima volta, fratello.
saúde!
Gerúndio”
