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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2023

tanto vale quanto

 

tanta coisa pra não fazer tanta preguiça funcional

fiz foi lista middle-class

super smart tv suicida

vazamento

pendurar o quadro

terminar relatório

deitar na rede

 

tanta coisa para não tocar na questão mal posta

fiz foi diagnóstico subjetivo

besteira é dizer o que não se sustenta

o dizer não quer dizer nada

o dito sim tem consequência

encontros são contingentes

hoje eu saberia apostar

 

tanto mar tão longe pá tanta légua

fiz foi fluxograma transverso

a ralação sexual não resiste à relação

a gente amar não tem a ver com sexo

amor é besta recíproco brincalhão

faz-signo   troca-discurso

tesoura-pedra-papel-......-........-..........

 

tanta coisa fresta trinca tanto vão

fiz foi confusão translúcida

se hoje já tinha sido

se ontem foi um dia há muito tempo

se a mente come o estômago

o que é uma bicota na ponta do nariz?

quanto vale um emojí?

andrejcaetano

Rinko Kawauchi



quarta-feira, 7 de dezembro de 2022

o Outro [carlos drummond de andrade]

 

Como decifrar pictogramas de há dez mil anos

se nem sei decifrar

minha escrita interior?

 

Interrogo signos dúbios

e suas variações caleidoscópicas

a cada segundo de observação.

 

A verdade essencial

é o desconhecido que me habita

e a cada amanhecer me dá um soco.

 

Por ele sou também observado

com ironia, desprezo, incompreensão.

E assim vivemos, se ao confronto se chama viver,

unidos, impossibilitados de desligamento,

acomodados, adversos,

roídos de infernal curiosidade.

Trivela


sábado, 19 de novembro de 2022

noite escura incidental

Lorenzo Castore
 








quando voltava ia para lugar nenhum

recostado no breu de um cigarro aleatório

vi o revólver no nariz

a cicatriz na montanha escura da cidade

 

ereto

tremendo

explodi o pode-ser da cachaça das chances

 

foi assim o nada descido frio em meu pescoço

foi assim e ó era tarde demais

noite brusca

 

noite escura estrela-chuva noite escura nos meus olhos

noite escura nas mãos do agiota errante

noite bruta

 

em deitado no asfalto naquela estrada olhando o céu

eu mesmo percebi que ia sobreviver

eu mesmo vi quem mandava

            a chuva há de parar e parou

            o céu há de estrelar e estrelou

 

eu não procurava nada naquela paz muda

no céu estrelado

só olhava

não tinha gente


            alguém estava em pé do outro lado da estrada

            eu olhei

            disse nada

ele respondeu

            disse assim também a mesma coisa para mim

            nada

            só olhar

 

barulho luzes uma polícia rodoviária espantou a paz

[espavorida

 bateu asas]

 eu mesmo sabia quem não ia viver

 

um cão pastor atravessou a estrada

parou logo aqui

            rosnou três vezes

            para a noite escura nos meus olhos

andrejcaetano [1990]





domingo, 6 de novembro de 2022

sexta-feira, 7 de outubro de 2022

lugar de mais-ninguém

 

sem presságios sem anunciações

coincidindo reincidentemente

outra coisa sobrevirá

aqui

onde coisa alguma

[cheia das mesmas coisas de sempre]

agora há

 

uma hora dessas [ou duas]

[se a morte não há-vida ainda]

essa outra coisa

cobra-castiçal

iluminar-se-á neon

toda leonina


pescoço de girafa

se aprumará

 

se levantará da poltrona

toda venusiana

 

toda lunática

deixará as redes

largará as cadeias de balanços

e

crisálida naquela coisa-alguma

irá até a janela

e a abrirá convocando o vento

 

sem sair do lugar

voará

esvoaçará

pássaro-inseto da mesma pulsão

outra coisa saída

outra pulsação

andrejcaetano

Carolyn Drake


quarta-feira, 13 de julho de 2022

amares


a ironia na admiração

o timbre claro e calmo para objeções

suspiros

enfado às vezes

outras

resignação

 

precisos comentários mundanos sobre o absurdo da vida

[puro embevecimento]

a fala murmurante com as plantas

as expressões do olhar nas frases mínimas

no esboço de um sorriso alguma imensurável satisfação

a face rubra e explícita de desejo quando desejo era

 


 

adorava [dizia] me ouvir quando eu danava a falar

me ouvia observante

absorvia

até que eu ex-gostasse

 

então aplicava uma objeção irônica

no meio da minha testa

e esboçava um sorriso

 

amava [disse] me ver falando

‘você fala pelos braços’

e os tomava para ela

fazendo deles um abraço

enfunado de silêncio

andrejcaetano

[? (@_ko_mon)]


 

sexta-feira, 10 de junho de 2022

mato morro e descampado


trocentos cigarros

 

entalado na saída do buraco

no meio do mato cerrado

não dava pra fazer outra coisa

 

meu cachorro me deixou pá trás

cachorro da alma danada

disse

‘fica fumando aí’

[aí no mato dentro?]

‘que cê vai cair do outro lado’

 

imaginei um descampado do outro lado

no fim do mato

depois do morro

mas parei de pensar nisso

que começou a ventar

um vento frio do cacete

soprado de uma massa bipolar

 

tremendo

acendi outro cigarro

que se não dá pra fazer nada

pelo menos sinal de fumaça

uma krenakarore quiçá veja decifre

o descampado frio dentro do mato

 

‘fica fumando aí’

aí onde

na saída do buraco

no mato sem cachorro

nos olhos krenakarore

no morro pelado

no descampado lasso?

 

pergunta idiota

 

no meio do o-que-seja

unha-de-gato

carrapato 

carrapicho

vim dar sabendo do um

quase-tudo

noves fora

nada

 

trocentos cigarros

 

e daí?

andrejcaetano

[? (@PierreBotte1)]



quarta-feira, 11 de maio de 2022

nadaquém

 

nada é

nada está

ou vem

com figura imagem

 

a piscina nada na 1ª pessoa do

singular

pluralista nada não

 

do teto cai um tatu

do dia a dia

um tudo-bem

nada além

nada

a quem

andrejcaetano

[@ertugcsayin]



quarta-feira, 4 de maio de 2022

distânsia


enquanto eu escovo os dentes

Distânsia se despe

e deita na minha cama

 

depois que bochecho

enxaguo

lavo a boca

me deito nela

 

ela me abraça

me acaricia

acalenta

cicia

shssss 

sussurra

vem

aqui

bem longe

dormir

andrejcaetano

Kristian Schuller


domingo, 20 de fevereiro de 2022

a-ponte

 

não há mais necessidade de poemia

há já um tempo o que se inscreve

é de fórum

adentro

 

onde não dá narciso secundário camuflado de ser vegetal

ficou esse escrever para ele ler depois

ficou mais tranquilo

 ficou mais sentido

 

naquele ponto em que se zanza para lá e para cá

margem direita de córrego carregado de temporal

caído no pé da serra durante a noite

córrego que urra  -[rio]---

 

naquele em que se erra para cima e para baixo

só

calmo

observando quando

 

observando se

a ponte submergida reemergirá

aponte o outro lado

a ponte a nado

 

isso não é uma questão porém

nem isso

imaginar se a ponte resistiu

nem se ponte existiu

andrejcaetano

[@archillect]




quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

o osso da poiesis

 

um poema virá

virá um poema

que dirá

o poema que virará

fala

 

um poema virá

virá um poema

que falará

o inefável

nominará

o inominável

na palavra que inexistirá

até o advento

do poema

que virá

 

um poema virá

virá um poema

que abrirá

no meio da pedra

um caminho

 

no meio da pedra há outro poema

que

desinstalado lá

estalará

o acolá

andrejcaetano
[ ? ]



quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

papo furado

se cel, na horizontal ver


garotos e garotas se atravessam sem olhos para oásis

só miragem só miragem

 

que as mulheres iniciem a conversa

mesmo um coice

 

seda

toque

 

se a gente deitasse torrente a gente não descansava

insones      atormentados

andrejcaetano
[ ? ]


terça-feira, 7 de dezembro de 2021

outono

 se cel, na horizontal ver


não tem rio nem mar

para arear os fatos

 

palimpsesto ilegível

jornal repleto de notícias coloniais

 

a mulher me olha paralá de minha concha sabendo o que eu não sei

o que eu não sei é exclusividade das confluências

 

escleroso minha morte

dou exemplos que ela desconhece

 

é um dia assim já ao meio de si

que carrego

 

toda briga minha

muito tempo depois eu perdi

andrejcaetano

[ ? ]

segunda-feira, 20 de setembro de 2021

alaikum as-salaam

Ele mora no alto de um minarete com uma vista ampla da cidade e da montanha ao fundo, a leste. A oeste a mesma coisa, ou quase. Não há vista para o sul. Há para o sudoeste. E é parcial. O que não dá mesmo para ver é o norte. Mas o norte é magneticamente claro, diz ele. Por mim, ele deveria descer do alto do minarete e caminhar ou pedalar ou tomar um ônibus ou sentar em algum lugar e olhar as pessoas que passam em todas as direções. Ele receia descer, porém. No solo ele teme que as direções não sejam tão claramente magnéticas e que o norte possa desnorteá-lo. Acho que por isso ele não sai, a não ser uma ou duas vezes por semana para fazer compras no supermercado da esquina. De vez em quando conversa comigo ao telefone. Pergunto se ele está bem e ele muda de assunto ou diz peremptoriamente “claro, clara e magneticamente”. Acho que ele espera que alguém, ou o norte, sei lá, suba no alto do minarete e conte para ele um conto ou cante uma canção que lhe sopre uma visão e lhe encarne uma centelha e o faça descer e passear pela cidade e lhe mostre como é o leste, o oeste, o sul e o norte mirados do chão. Tenho certeza, se isso fosse possível, que ele espera que seja uma mulher ou algo do sexo feminino. Ele desconfiaria de qualquer coisa do sexo masculino, ou melhor, ele não confia no senso de direção masculino. Faz um bom tempo desde a última vez em que estive no alto do minarete. De vez em quando tenho vontade de voltar. Conversar longamente. Acarinha-lo. Colocá-lo, guardá-lo dentro de mim, gozar dele e com ele. Já fomos isso. Mas eu não tenho a menor ideia do que o norte apronta e não tenho nenhum interesse em bússolas. Não são necessárias. Também não tenho muita paciência para a imobilidade. Uma aranha na tocaia, quer dizer, uma aranha imóvel na sua teia à espera. À espreita. Sem saber de quê. Na última vez em que estive lá passamos a tarde conversando, tomando chá, rindo. Eu me despedi dele com um beijo longo, lambido, lambuzado. Não sei se ele compreendeu que era uma despedida, que eu não subiria mais lá. Apenas pensei, sem pensar, que um beijo assim pudesse despertá-lo. O beijo seria uma maneira sensorial de fazê-lo perceber que a língua não tem direção e no mais das vezes não faz sentido. Lembro-me que ele ficou mudo olhando-me fixamente por alguns instantes como se tivesse tido uma revelação, de que o desejo o abandonara no alto daquele minarete. Ou de que ele largara o desejo no rés do chão. Sei lá. Tive ímpetos de colocar sua cabeça no meu colo e embalá-lo devagarinho, vagarosamente. Talvez eu tenha sentido pena dele, pena de todos os homens que são um pouco mulher e por isso se perdem entre uma coisa e outra, ambas sem importância. Isso me trouxe uma sensação de que poderia me deixar amá-lo outra vez. Ficar lá em cima ao seu lado, do lado oeste, olhando o sol sumindo na tarde e sumindo com ela. Mas não seria bom, poderia ser cruel, poderia ser cruelmente líquido e evaporar rapidamente com esse calor de abafo que tem esta cidade. Além do que não queria perder meu amigo do alto do minarete. Ao fim dos seus segundos de transe após o beijo ele disse “você ainda fala a língua de todos os sexos, salaam alaikum.” Eu sorri e me fui. Há dois dias ele me ligou para contar as novidades, quer dizer, nada, apenas pretexto para dizer o que ele precisava dizer para alguém que não ele mesmo: “estou cansado”. Eu perguntei do que ele estava cansado. Ele respondeu: “do magnetismo invisível e das bússolas inexistentes, de crer em direção e sentido...” Fiquei calada, falar o quê? Alguns segundos em silêncio, ambos, e ele continuou: “...estou mesmo é com saudade...”. Fiquei curiosa, do que ele estaria saudoso? “...da sua língua”, disse ele.

andrejcaetano

[? (@kulturtava)]


sexta-feira, 2 de julho de 2021

Gerúndio e seus negócios


não há quem

enovelado em novela repetida

[cedo ou tarde]

não penhore o espírito

pela mesma aposta já perdida

desde o último grande lance

[o inconsciente é o diabo]

 

Gerúndio não

 

Gerúndio vendeu seu próprio tempo

para adquirir temporadas atemporais

[a memória de tempos

 pela memória de vidas]

 

vendeu seu corpo para si mesmo

sem opção de recompra

[en el día en que una gitana en pozo del camino

 le agasajó con dos palabras (‘mi angelito’)]

 

vendeu amor pelo seu valor de face

sem oferendas

cláusulas de retribuição

solicitações de reembolso

 

revendeu reflexos de sua imagem sem liquidez

inadvertidamente radioativas

[escandem significantes átonos

 empalidecem semblantes tônicos]

 

alheio

vendeu à sua reputação seus direitos

em negócio meta-libertário

razoavelmente pioneiro e perene

 

distribuiu a preço de algumas bananas

preciosos recursos imateriais

[inegociáveis no subsolo das negociações

 lhe abundam superficiais]

 

vende por apreço artístico

modestas parcelas de enlevação

a serem pagas no infinito

[na mesma moeda]

 

vem de si afeternura

[de porteiras abertas

 e olhos fechados]

aos que lhe são claros

 

avoado

sem cacife

Gerúndio

à mesa dos jogos

desbanca seu próprio cacique


andrejcaetano
@archillect