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quarta-feira, 21 de agosto de 2019

epígrafe

I am tabula rasa, please fill me
Andy Warhol

com os braços cruzados
os deuses farão a chuva
com a face impassível das águas
farão verbos e faraós
histórias sacras cegas malucas
acidentes de ácido sulfúrico

fatigados de muito trabalho
me farão um dia escrever
que cruzei uma ponte tal
num dia tal
e alguém passou por mim
e estava grávida de dois meses
andrejcaetano
Frank Herfort

domingo, 18 de novembro de 2018

modelo para editais universais

Jean Marconi

introdução blasé
o ofício a fazer a obra
o trabalho
a agenda jetzt-ayer
almas esquemáticas
[disciplinas a disciplinar
coordenações a coordenar]
vaso vazio na cabeceira da pista
a descolar

construição
[uma sociedade contra o estado?
 confrarias?
 uma participação especial?
 mil e tanto?
 marcenarias?
 a felicidade de seu estrato?]


justificativa sincera
Nonsense esquematizar o nonsense no papel assim:
a disciplina
a gestão
o filha
psicanálise
muita televisão                                                           carro demais
                                                                                                trânsito
                                                                                                interurbano
                                                                                                muito barulho
as bíblias tão chatas
as receitas perfeitas
o respeito
a grande derrota

[o tempo  a vida que há
 há somente dali para frente
 do agora em diante
 ainda e sempre]

(o derrotado amador é um re(tro)visor profissional)


metodologia consuetudinária
não era isto
não era aquilo
o que era?
[a pergunta pronta veio sem querer
 coisa de procrastinador]

qualquer estafeta tem sua agenda científica
toda agenda
causa
ou é associação
                        [te imobilizaste encruzilhada ou pegaste a trilha errada?
                         os ímpares avaliarão]

um mim sociológico
se escreve
escreve para revelar o que se aparece natural
porém é fora de si o todo-poderoso
o que se pode é o que se deve
[citar clássicos é parte e forçoso:
            ‘os deuses vendem quando dão’]


resultados desesperados
título da mesa: war on clichês – overture movement
a brief introduction onto her work:
eu gosto sem você
eu sem amo sou
eu sei não
eu sei que você também
coordinator: isso está em livro publicado pela Gallimard
presenter II: isso   talvez seja isso
presenter X: sua obra foi escalar
discussant: ...
from the floor: no eixo o amo sobreposto ao trabalho
from the bar: quanta sorte essa confluência circular
also from the bar: a sobrevivência é uma fábrica de fantasias
an outsider on the floor: o que de resto nunca é falho
somebody: a não ser pelos estatelamentos da construição
nobody: é, tem que ler o prefácio à 2a edição


considerações mui pessoais
a questão central era se a história depende da presença de mitocôndrias no enredo
mas o que ela queria era escrever um livro
sem umas rimas
sem regências
nem umas solução
muito menos esquemas listas roteiros
nada de promessas
ela queria a disfunção!
um canal
luz câmera ação
orcas
predando nos mares gelados
caçoando da caça
uma para as seis
[mnemônicas camaradagens]
excertos se esborrachando nos rochedos
esse tanto de deuses nórdicos
e seus círculos polares obviamente árticos
andrejcaetano

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Gerúndio beija o astrolábio

Elliot Erwitt
                       

Gerúndio envelhece só no mundo com cafeína nicotina e pastilhas sentimentais

                        intermediário entre uma chuva e outra

                        dígito-eletrônico

                                    [com instruções minuciosas e imprecisas]

                        cervejas macumbas cerejas

                        comprimidos de de-vez-em-quando

                        documentária sobre instrumento outrora tão poderoso

                                    [da altura das estrelas foi a expansão ultramarina]

 

            envelhece uma pústula infectada e invisível

                        bicho bronco de corpo cromo e asas alvas

                        bicho tosco que o raio do pós-romantismo partiu

 

            envelhece a puta-que-o-pariu três vezes

                        a pergunta sobre a função da obra de arte

                        a função da obra de arte

                        a obra de arte

                        [e o que quer que seja aquilo ali]

           

envelhece piados em tuítes postes em facebooks imagens instagramáticas

entupindo os circuitos neuronais com limites e derivadas insolúveis

 

envelhece nas regiões metropolitanas

linhaça   germe de trigo  

glúten-on/glúten-off

farmaco farmarculorum y drogas manipuladas

manteiga-margarina-margarina-

manteiga!

 

envelhece no reino do design gráfico

as proporções os formatos

os tipos as fontes

as tetas das letras gregas

fórmulas para tudo e qualquer coisa

pois quanto mais formulaico menos autonomia

quanto menos autonomia mais autocrática a ideologia

                                                                        a verdade da palavra coisa

                                                                        os parâmetros do modelo

                                                                        e o que quer que seja aquilo ali

 

envelhece com e sem gozo

dependendo da estação do ano

do dia

da hora

do cheiro

da substância

 

envelhece também nas áreas urbanas não-metropolitanas e no campo

 

envelhece como adolesceu

pleonasmo de si mesmo

cisne-asno

querendo beijar o astrolábio

andrejcaetano

sábado, 4 de novembro de 2017

misstep

a step at the heart
hard to take
hard to think of
[how come at this juncture another start?]

if you can’t take it
this small juvenile stupid step
if you can’t dare to bear
this tiny ridiculously heartfelt pace
seemingly a misstep
don’t say anything
don’t tell any story
don’t hold any hand
don’t bother with weaselled tears
just stand there dully
watching your ashen heart burn apiece

if you can move yourself though
and even crawling
get at the brink of the cliff
just fall
fail
die
to everything and all
stand tall
as you enter the reign of your desires
as you disappear amidst the stars
andrejcaetano
[ ? ]

domingo, 13 de agosto de 2017

confession to my undead dad

passos largos
teus pés arrastam
a dor que dá
outra voz
outra casa
outra noite
esperança 
               a outra face do súbito
que um suspiro foi tudo
que um suspiro
foi
andrejcaetano[1988]
Viki Kollerova

sexta-feira, 2 de junho de 2017

gêneros ii

a mulher olha o deserto e diz
‘léguas’

eu sou moléculas de homem
prazer tem prazo e alegria tem nome

andrejcaetano
Simon Procter

segunda-feira, 24 de abril de 2017

fado


foi a digressão de uma mulher dirigida a um homem cego que disse:

‘meu amigo, o sexo oposto tu és’

 

e o moço, encantado com tamanha objetividade, propôs:

‘mudemos os planos cartesianos com plantinhas no parapeito da sacada de nosso lar

 

luzes quando escurecer! brincadeiras quando o breu se der!’

que ela replicou mansinha: ‘olha, o fado é que só-fejará de longe o seu bafo de cotas’

 

meu deus!, e ele continua na janela olhando de través

vesgo   pangaré

andrejcaetano
Francisco Mata

segunda-feira, 6 de março de 2017

a mancha da tarde

sentei-me para ordenar as tarefas da tarde
e a primeira que me veio foi exatamente esta:
escrever um poema.
qualquer um!

manuel de barros adejou pelos desvãos da minha lógica
com seus sapos e pedaços de pau
e as personalidades dos rios e seus barrancos.
mas de nada adiantou.

poesias mais acadêmicas também sobrevoaram minha ótica.
inquietei-lhes a atitude com alguns poemas
de wislawa szymborska.
outra hora.

logo ali
o futuro do pretérito do trânsito paulistano
engarrafava poesias concretas.
mas nem me passou a idea de bebê-las.

lembrei-me então que eu bebera joão cabral.
isso porém não alterava minha condição
de temporário residente desta nau.
e agora?

preciso um poema
que não diga nada demais.
apenas manche esta tarde de palavras
e imprima nela a falta que ela não faz
andrejcaetano

sexta-feira, 24 de junho de 2016

a chuva, o sol e o vento


Que venha o carnaval
E que se vá o carnaval
E as odisseias diárias
De um cidadão ordinário

Que venham a nudez e a necessidade
E que elas passem
E mais as estações do ano
E que passe pelo trem
A tal cidade de Lugano
E mãos ternas e carinhosas
E os desastres desumanos

Que venha a morte
Que a morte passe
Desarmada enfim a alma
Que venha e passe
Também o nada

andrejcaetano
@archillect

sexta-feira, 13 de maio de 2016

recordação do país infantil [oswald de andrade]

A estação da estrela d'alva. Uma lanterna de hotel. O mar cheiinho de siris.
Um camisolão. Conchas. 
Vamos à praia das Tartarugas! 
O menino foi pegado dando, atrás do monte de areia. 
O carro plecpleca nas ruas. 
O trem vai vendo o Brasil. 
O Brasil é uma República Federativa cheia de árvores e de gente dizendo adeus. 
Depois todos morrem. 
Oswald de Andrade                                 

quarta-feira, 11 de março de 2015

a paper on social class

"I think someday you're going to be a great writer," he said.
"But" he added maliciously, "first you'll have to suffer a bit.
I mean really suffer, because you don't know what the word means yet.
You only think you've suffered. You've got to fall in love first."
Henry Miller (Tropic of Capricorn)


a beautiful young scholar wearing black glasses

presents her study’s motives

its relevance

foundations

methods

results

 

I think sex       not about her              not with her

no sex at all

not here

not now

 

[but I do enjoy strolling around it without the thinking of it]

 

no m’am

not picturing it

neither lust nor seduction

not a male-ish drop

but animals beautifully designed to practice it as an art form

in which lines curves lights shadows sweat moans

align with mars

and pleasure guides the planets

 

no sir

I am not able to differentiate bodies

I only hear lines and curves

and smell faces


andrejcaetano - Cape Town, South Africa (2017)

Aart Klein

sábado, 17 de janeiro de 2015

alegría

John Hornbeck









cuando nascer la otra hija

ella misma se nombrará Alegría

e non tendrá mãdre

[perquè ain’t no mountain high enough]

la niña se llamará Alegría

y no tendrá madres

[‘cause ain’t no mountain high enough]

 

mi novia

Montserrat

me apascentará

e eu amanhã-la-ei

 

no oiré máis sonidos de autos

com motores de 200 caballos

no ensacaré dilemas en encruzilhadas

ni irei a fiestas de cumpleaños

 

quando eu tiver morrido será uma pena

o fim da partida

só isso

 

não me preocuparei mais com fonemas

ni amb la història de brasil

no em preocuparé per les sequeres prolongades

nem com o bem-estar das próximas gerações

 

quando o minúsculo segundo do derradeiro minuto

atirar la última piedra

e errar o alvo

quedaré en la paz de los olvidados

mirando de mi ventana

los bos aires de mi amada

y la prediaria de aquel cidad

 

Montserrat

una sonrisa unha bágoa

xiuxiuejarà

‘Alegría é túa fia’

 

e quando eu tiver morrido

será uma pena

e só isso será

andrejcaetano

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

the woman in the balcony

All of a sudden
At least it seemed so then
The terrain got flat and plain
From the balcony
She starred at it long enough for the moon to change

Nothing changed
Her terrain stood flat and plain
There was no question
Nothing to answer nothing to claim

She took a pill
Two of them
Two shots of tequila
To shut down the brain
.
.
.
Kept starring at the terrain
There was no beauty there was no stain
The moon turned off its phases
Nothing to see nothing to complain
Two more shots of tequila then
‘Perhaps I am part of the terrain
 Worlds apart from any saying‘

Silence asked for silence
As the words also got flat and plain
 ‘Sure hoping is always in vain
  But mayhap tomorrow won’t be this way’
andrejcaetano

Brett Walker

terça-feira, 12 de agosto de 2014

casida da menininha

Dois loucos perambulavam pela Carochinha
Cada conto que encontravam
Agarravam e guardavam na sacolinha
Cada conto que encontravam
Menos um na Carochinha

Dois loucos saqueavam a Carochinha
A cada conto que encontravam:
‘Este é meu!
 Contos são dos que caminham!’
E tomavam o que não liam

Normal foi ficando a Carochinha
Vias, carros, cobras, gentes
Os loucos, os transeuntes
E eis que deram com uma menininha
Triste pelo que lá mais não tinha

Um louco olhou o outro:
‘Será um conto essa coisinha?’
Ele mesmo se anuviou:
‘Não, isso é uma menininha
E não cabe na sacolinha’

O louco outro sugeriu:
‘Caberá se bem amassadinha’
E ele mesmo desponderou:
‘Mas ficará toda amarrotada,
Não resolverá uma passadinha’

Afligida, a menininha ralhou:
‘Devolvam os contos da Carochinha!’
‘O que você nos dá em troca?’
 Perguntaram em uníssono
‘Tomem minhas lagriminhas’

‘Elas são líquidas ou de cristal?’
 Desconfiaram em uníssono
‘Nem líquidas nem sólidas,
São apenas minhas’
‘Então nada feito, menininha’

Loucos saqueiam a Carochinha
Encostadinha em uma folha
Está uma menininha
A repetir bem baixinho
‘São pérolas as minhas lagriminhas’
andrejcaetano
Herbert Lizt