Páginas

sexta-feira, 24 de junho de 2016

a chuva, o sol e o vento


Que venha o carnaval
E que se vá o carnaval
E as odisseias diárias
De um cidadão ordinário

Que venham a nudez e a necessidade
E que elas passem
E mais as estações do ano
E que passe pelo trem
A tal cidade de Lugano
E mãos ternas e carinhosas
E os desastres desumanos

Que venha a morte
Que a morte passe
Desarmada enfim a alma
Que venha e passe
Também o nada

andrejcaetano
@archillect

sexta-feira, 13 de maio de 2016

recordação do país infantil [oswald de andrade]

A estação da estrela d'alva. Uma lanterna de hotel. O mar cheiinho de siris.
Um camisolão. Conchas. 
Vamos à praia das Tartarugas! 
O menino foi pegado dando, atrás do monte de areia. 
O carro plecpleca nas ruas. 
O trem vai vendo o Brasil. 
O Brasil é uma República Federativa cheia de árvores e de gente dizendo adeus. 
Depois todos morrem. 
Oswald de Andrade                                 

quarta-feira, 11 de março de 2015

a paper on social class

"I think someday you're going to be a great writer," he said.
"But" he added maliciously, "first you'll have to suffer a bit.
I mean really suffer, because you don't know what the word means yet.
You only think you've suffered. You've got to fall in love first."
Henry Miller (Tropic of Capricorn)


a beautiful young scholar wearing black glasses

presents her study’s motives

its relevance

foundations

methods

results

 

I think sex       not about her              not with her

no sex at all

not here

not now

 

[but I do enjoy strolling around it without the thinking of it]

 

no m’am

not picturing it

neither lust nor seduction

not a male-ish drop

but animals beautifully designed to practice it as an art form

in which lines curves lights shadows sweat moans

align with mars

and pleasure guides the planets

 

no sir

I am not able to differentiate bodies

I only hear lines and curves

and smell faces


andrejcaetano - Cape Town, South Africa (2017)

Aart Klein

sábado, 17 de janeiro de 2015

alegría

John Hornbeck









cuando nascer la otra hija

ella misma se nombrará Alegría

e non tendrá mãdre

[perquè ain’t no mountain high enough]

la niña se llamará Alegría

y no tendrá madres

[‘cause ain’t no mountain high enough]

 

mi novia

Montserrat

me apascentará

e eu amanhã-la-ei

 

no oiré máis sonidos de autos

com motores de 200 caballos

no ensacaré dilemas en encruzilhadas

ni irei a fiestas de cumpleaños

 

quando eu tiver morrido será uma pena

o fim da partida

só isso

 

não me preocuparei mais com fonemas

ni amb la història de brasil

no em preocuparé per les sequeres prolongades

nem com o bem-estar das próximas gerações

 

quando o minúsculo segundo do derradeiro minuto

atirar la última piedra

e errar o alvo

quedaré en la paz de los olvidados

mirando de mi ventana

los bos aires de mi amada

y la prediaria de aquel cidad

 

Montserrat

una sonrisa unha bágoa

xiuxiuejarà

‘Alegría é túa fia’

 

e quando eu tiver morrido

será uma pena

e só isso será

andrejcaetano

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

the woman in the balcony

All of a sudden
At least it seemed so then
The terrain got flat and plain
From the balcony
She starred at it long enough for the moon to change

Nothing changed
Her terrain stood flat and plain
There was no question
Nothing to answer nothing to claim

She took a pill
Two of them
Two shots of tequila
To shut down the brain
.
.
.
Kept starring at the terrain
There was no beauty there was no stain
The moon turned off its phases
Nothing to see nothing to complain
Two more shots of tequila then
‘Perhaps I am part of the terrain
 Worlds apart from any saying‘

Silence asked for silence
As the words also got flat and plain
 ‘Sure hoping is always in vain
  But mayhap tomorrow won’t be this way’
andrejcaetano

Brett Walker

terça-feira, 12 de agosto de 2014

casida da menininha

Dois loucos perambulavam pela Carochinha
Cada conto que encontravam
Agarravam e guardavam na sacolinha
Cada conto que encontravam
Menos um na Carochinha

Dois loucos saqueavam a Carochinha
A cada conto que encontravam:
‘Este é meu!
 Contos são dos que caminham!’
E tomavam o que não liam

Normal foi ficando a Carochinha
Vias, carros, cobras, gentes
Os loucos, os transeuntes
E eis que deram com uma menininha
Triste pelo que lá mais não tinha

Um louco olhou o outro:
‘Será um conto essa coisinha?’
Ele mesmo se anuviou:
‘Não, isso é uma menininha
E não cabe na sacolinha’

O louco outro sugeriu:
‘Caberá se bem amassadinha’
E ele mesmo desponderou:
‘Mas ficará toda amarrotada,
Não resolverá uma passadinha’

Afligida, a menininha ralhou:
‘Devolvam os contos da Carochinha!’
‘O que você nos dá em troca?’
 Perguntaram em uníssono
‘Tomem minhas lagriminhas’

‘Elas são líquidas ou de cristal?’
 Desconfiaram em uníssono
‘Nem líquidas nem sólidas,
São apenas minhas’
‘Então nada feito, menininha’

Loucos saqueiam a Carochinha
Encostadinha em uma folha
Está uma menininha
A repetir bem baixinho
‘São pérolas as minhas lagriminhas’
andrejcaetano
Herbert Lizt

quinta-feira, 3 de julho de 2014

novíssimas poéticas avoengas

ovas que não dão peixes
mesmíssimas malditas
[irritam-se
 as escritas]

velhíssimas novas nos enfeixes
            novíssimas ditas nos enfeites
troca-trovas de desditas
            trovas-ocas ocas chocas

ortocanônicas
confabuleias juramentosas
remuneram-se ventríloquas
autocongratulatórias

lei projeto e fábula
páginas kilocalóricas
ver-o-peso e desova
nas orelhas as devidas loas

capa
brônquios bronquíolos alvéolos
contracapa
  e nada do numerário sujo da alma
andrejcaetano
Hugo Mulas-Lucio Fontana

sexta-feira, 30 de maio de 2014

longo poema seco


o sol se pôs e ela não foi embora, ficou ali pensando na vida

de costas a liberdade deliberou: ‘ai meus deus’ – assim viram os olhos da manicure;
o anarquista disse para a pirotecnista: ‘deixa ela lá para ela não se machucar’
[era noite de lua nova, muito breu]

a moça levantou a perna, pousou o pé no banco e recostou o queixo no joelho

‘tudo ali é dela’, disse o dono da venda vendo de longe, ‘menos o que ela quer’;
‘ela não quer nada’, disse a mulher do dono da venda

os pés da moça estavam vestidos de lona vermelha, ela olhou o calçado

‘nestes tempos de tanto calor ela deve estar com chulé’, disse o vigarista;
‘ela ali pensando na vida que levaria se eu a levasse dali’, fantasiou o fantasma;
‘tu não hás e logo não a levarias’, disse o guarda;
a guarda olhou para o guarda e não disse nada para a falta de assunto
que reclamou que o tempo não passava
pois desde 18&58 já era uma vida e eram apenas 19&19

o início, conforme se especulou durante os meses seguintes,
foi o mar: corpo novo e solto assim vem do mar
‘do mar e do sol, que se pôs,
o que ela deveria ter considerado, deveria ter pensado na vida
e se preparado para as suas inevitáveis calamidades’,
devaneou o decano vigário

às 19&21 a moça tirou os olhos dos pés vermelhos, o queixo do joelho e a perna do banco

vinte oito expectadores se retesaram:
‘olha! olha! o que será que ela vai fazer?’

a moça levantou-se, chacoalhou a cabeleira e suspirou um sorriso para o alto

‘que coisa mais bonita’, pensou o vendedor de rapadura, ‘uma nuvem’;
‘vento de estrela’, a mãe da doceira viu, ‘o suspiro dela’

a moça se pôs a caminho
dobrou a ponta da praia
            e sumiu 

andrejcaetano
Natsume Soseki

quinta-feira, 27 de março de 2014

argos


carimbo
o cigarro revoluteando

em si bemois circulares
duas músicas

barroco ensimesmático de um mirante envolvendo com oceanos os tais sertões
quase um urso

aço
o vapor branco de Argos tracejando os céus da intemporalidade

andrejcaetano
Mario de Biase

terça-feira, 8 de outubro de 2013

semi-óticas [em 1/2 ato]

O transcendental se dissolvendo no 
Efêmero 
[Papo Furado (Cacaso)]

Cenário: um cobertor marron um cobertor amarelado
três gatos míopes imóveis
uma xícara de gás tranquilizante
um robô frio estragado
dois pratos com o resto do macarrão
uma garrafa de uísque escorregadio
um largo colchão no chão

Ela (olhando para o mar):  Foi por ali
meu bem
que fui parar em Paris
sonhar com voltar
Convalesci em Iriri
Nasci em Minas Gerais

Ele (olhando para o sertão): Ai aurora nascida de ventres pardos
esclerosada aos doze anos de idade
políticas   relações sociais
tão distantes de ti ou de nós
metafísicos da desimportância

Ela: em teu cobertor mumifico

Ele: em teu cobertor dilacero

andrejcaetano
Milena Seita

sábado, 5 de outubro de 2013

religiya i revolyutsiya

[...], a forma que revestirá o processo de edificação cultural e de auto-conhecimento do 
homem comunista desenvolverá ao mais alto grau os elementos da arte contemporânea 
[Leon Trotsky (Literatura e Revolução)]


Não matarás não cobiçarás a mulher do próximo
Práxis incontestes
Deus pôs leis em uma tábua
Inerte
Pois – deu a tábua a Moisés
Tu investes
Amarás ao próximo como a ti mesmo
O grande teste
E o espírito santo penetrou os corpos apostólicos
Pentecostes
.
.
.
O homem é o supremo senhor de sua agência
Sem concorrentes
A liberdade é seu desígnio último
Em utopia não se põe corrente
E o espírito do povo esteve em seus delegados
[Brevemente]
Atado aos propósitos revolucionários
Sovietes
Pois – Lênin morto
 Trotsky eterno crente –
Os desígnios se fizeram suprarreligiosos
            Bíblicas pestes e margareth tatchers
andrejcaetano
Jelena Osmolovska


segunda-feira, 6 de maio de 2013

o fabuloso canyon do peixe tolo



nadam ao seu redor citações plenas e palavras cibernéticas e palavras transsiberianas e também cristalina confusão e meio da noite e luas minguantes e faces sisudas tratando-o como de casa porém sem o ser que há nele idiota ondulando sua caudinha ziguezagueante ziguezagueando pelas locas do córrego tal fosse aquilo o mar único que já houve e haverá honra e glória imensas de se navegar submergido neste mundo fenomenal não obstante infiminhas as cenozóicas escamas rabiscando a esmo a água em prata sem pedra alguma para educar empoladas penas e as coisas reais e venturosas a passar por ele liquidamente intangíveis a ridícula semana de tarefas abstrusas e comezinhas a lambuzar suas nadadeiras de matéria desconhecida e gosmenta e se sol ou se chuva ninguém sabe que ninguém olha ninguém olha o dia lá fora o passado não mais que um ontem (ou no máximo ant’ontem) e o futuro não está adiante eterno porvir água ao seu encontro futuro-aqui e o agora não é estar não é estaca não é pilar não é jaca só um olhar que ondula tonto como o rabo e pouco vê além de reflexos quiméricos nesse córrego-mar maravilhoso e enganador e portanto as citações esplenomegálicas em palavras longas nenhuma similitude com a tarefa seminal ou o prazer gratuito ou a alegria genuína de quem não nada habitante desse trecho curto desse ribeiro tímido território alimentativo de peixinho-inho sob o respirar majestoso do universo que se concebeu muito tempo antes dos primeiros laivos amebóides de consciência para a qual repentina e microssegundezimamente a realidade em eterna e pétrea aparição impera vera e única sem arestas seixo no leito do córrego no fundo do fabuloso canyon do peixe tolo
andrejcaetano
Belma Arslan